Uma linda conversa entre Rubem e Abujamra. Falam sobre algumas questões sensíveis da vida, como a beleza das perguntas das crianças, a descoberta de que a felicidade está nas pequenas coisas, e de uma educação transformadora. Num momento da entrevista, Rubem fala; " Olha a palavra que inventaram nas escolas, eu odeio essa palavra, grade curricular. Eu digo que grade curricular foi uma expressão inventada por um carcereiro desempregado. Você pensar que pode pegar os currículos e colocar em grade. Tá tudo engradado e ninguém protesta. Então é por isso que as crianças não aprendem. Por que que uma criança tem de saber o que que é dígrafo? Não serve pra nada. Mas tem que aprender porque tá na grade curricular e ninguém protesta." Abujamra pergunta: " Será que ninguém protesta?" Rubem responde: "Eu acho que a maioria das pessoas simplesmente aceita a grade curricular e os professores têm que dar o programa, têm que dar o programa e não fazem essa pergunta, pra que que serve isso? Pra que que serve isso?"
quinta-feira, 30 de abril de 2015
Vale a pena rever essa linda conversa entre Rubem Alves e Antônio Abujamra
Uma linda conversa entre Rubem e Abujamra. Falam sobre algumas questões sensíveis da vida, como a beleza das perguntas das crianças, a descoberta de que a felicidade está nas pequenas coisas, e de uma educação transformadora. Num momento da entrevista, Rubem fala; " Olha a palavra que inventaram nas escolas, eu odeio essa palavra, grade curricular. Eu digo que grade curricular foi uma expressão inventada por um carcereiro desempregado. Você pensar que pode pegar os currículos e colocar em grade. Tá tudo engradado e ninguém protesta. Então é por isso que as crianças não aprendem. Por que que uma criança tem de saber o que que é dígrafo? Não serve pra nada. Mas tem que aprender porque tá na grade curricular e ninguém protesta." Abujamra pergunta: " Será que ninguém protesta?" Rubem responde: "Eu acho que a maioria das pessoas simplesmente aceita a grade curricular e os professores têm que dar o programa, têm que dar o programa e não fazem essa pergunta, pra que que serve isso? Pra que que serve isso?"
quarta-feira, 29 de abril de 2015
Poema "Difícil fotografar o silêncio", de Manoel de Barros, declamado po...
Uma homenagem a Antônio Abujamra que esteve por quase 15 anos à frente do Programa Provocações, "idolantrando a dúvida", como ele dizia na abertura do "Provocações".
Neste vídeo ele declama um poema de Manoel de Barros;
"Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada, a minha aldeia estava morta. Não se via ou ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas. Eu estava saindo de uma festa,.
Eram quase quatro da manhã. Ia o silêncio pela rua carregando um bêbado. Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador.
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada. Preparei minha máquina de novo. Tinha um perfume de jasmim no beiral do sobrado. Fotografei o perfume. Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo. Fotografei o perdão. Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa. Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre. Por fim eu enxerguei a nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com maiakoviski – seu criador. Fotografei a nuvem de calça e o poeta. Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
Mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal."
( Manoel de Barros)
quarta-feira, 22 de abril de 2015
" A minha aula rompeu as paredes da escola por Andréa Barreto"
Professora de ciências e biologia utilizou plataformas digitais para passar conteúdos para alunos estudarem em casa
Por Andréa Barreto
Sou professora de ciências e biologia das redes pública e particular da cidade do Rio de Janeiro desde 1993, mas vejo que nossos alunos estão cada vez mais apáticos em sala de aula. O desinteresse é imenso e o aprendizado fica pobre.
Ano passado (2013), percebi que meus alunos não estavam nada interessados em sala de aula, mas quando se falava em fazer alguma atividade na internet, tudo mudava. Pensando nisso, resolvi lançar mão das aulas invertidas.
Eu já usava um recurso educativo que era um blog, chamado Dicas de Ciências, onde meus alunos reviam a matéria, baixavam mais exercícios e tiravam dúvidas. Porém, vi que os meninos necessitavam de outros recursos.
Então, criei cursos no Moodle, uma plataforma de aprendizagem a distância que é baseada em software livre. Nessa plataforma, eu fazia aulas que serviam de tarefa de casa. Cada aluno acessava (vale dizer que cada um tinha um perfil como nas redes sociais) e fazia a atividade. Essa tarefa consistia em vídeos, textos e exercícios. O conteúdo não havia sido dado em sala de aula. Era o primeiro contato deles com aquele tópico e eu acompanhava o desempenho de cada um online.
Depois, em sala de aula, o que fazia era tirar as dúvidas. Eu já tinha uma amostra prévia do perfil dos alunos, e, portanto, sabia das dúvidas e dificuldades de cada um. Como um cirurgião, trabalhava na escola essas dificuldades. Em sala de aula, procurava sistematizar e aprofundar cada tópico trabalhado.
É claro que o interesse aumentou e os alunos se sentiram co-responsáveis pelo seu aprendizado. Eles mesmos propunham outras atividades dentro ou fora da sala de aula. A minha aula rompeu as paredes da escola. O desempenho aumentou, as aulas ficaram mais vivas e os meninos passaram a amar ciências e biologia.
fonte: http://porvir.org/diariodeinovacoes/a-minha-aula-rompeu-paredes-da-escola-2/2014112
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quarta-feira, 15 de abril de 2015
com a palavra, Gilberto Dimenstein

"Como enganar as pessoas
Políticos conseguiram dar a esperança de segurança à população propondo a redução da maioridade penal. Isso como se colocar um jovem de 16 anos numa cadeia para adultos pudesse fazê-lo voltar melhor à sociedade. Datafolha de hoje: 87% dos brasileiros apoiam a redução.
Ao contrário: o jovem vai voltar ainda mais perigoso.
Na minha experiência como jornalista, aprendi uma regra: diante de problemas complexos, sempre aparece gente que encanta o país com soluções simples, rápidas e, no final, falsas.
A violência entre jovens é mais falta de escola do que de prisão. Só que isso demora."
(Gilberto Dimenstein)
terça-feira, 7 de abril de 2015
Entrevista com Renato Janine Ribeiro, Ministro da Educação
" Eu acredito na educação como libertação. Não é uma transmissão de conteúdos, não é uma padronização das pessoas e eu penso que um dos pontos importantes é como a gente aproxima isso do mundo da cultura. O mundo da educação é mais regulado, ele tem cursos, tem currículos, tem nota, tem diploma. Tô fazendo uma esquematização muito simples. O mundo da cultura você pode, sei lá, você vai ver "Lincoln" do Spielberg, é uma aula sobre escravagismo e abolição. Agora, aula mesmo seria diferente. Então, como a gente pode complementar? Pensando tudo isso dentro de algumas ideias, por exemplo, conhecer é prazeroso! Por que a gente deixou ao longo do séculos que conhecer se tornasse uma corvéia, se tornasse uma obrigação e não tanto um prazer? Tem muita gente refletindo sobre isso, nada disso é ideia original minha. Só acho que dá pra gente puxar mais pra esse lado na educação ! " (Renato Janine Ribeiro - Ministro da Educação )
segunda-feira, 6 de abril de 2015
Posse - Discurso do ministro Renato Janine Ribeiro
“Peço não só aos trabalhadores na educação, no MEC e fora dele, aos dois milhões de professores, mas também aos 50 milhões de alunos, a seus pais e familiares, aos cidadãos em geral, que deem o melhor de si pela educação.” (Renato Janine Ribeiro)
domingo, 5 de abril de 2015
Um texto sobre a Páscoa, por Rubem Alves
google imagem
“O Luiz Fernando Veríssimo escreveu uma crônica hilariante sobre a Páscoa. Foi um diálogo absurdo entre um menino, seu pai e sua mãe, sobre o sentido dessa festa. A crônica termina com uma observação justíssima do menino. Disse ele: “Eu acho que ao invés de “coelho da Páscoa” deveria ser “galinha da Páscoa…” Pois é claro. Todo mundo sabe que coelhos não botam ovos. E todos sabem que galinhas botam ovos…
Confesso minha ignorância: não sei como é que o coelho entrou nessa estória. Para início de conversa é preciso lembrar que os textos sagrados não fazem referência alguma a esse animalzinho fofo. Quem foi que teve a ideia de torná-lo o personagem mais importante dessa celebração cristã?
Certamente um gozador. E para tornar a estória mais absurda, fizeram com que os coelhos, que não botam ovos, botassem ovos de chocolate… Nos tempos de Jesus Cristo havia chocolate? Acho que não. Galinhas não são seres poéticos. Na poesia elas sempre aparecem como bichos engraçados, cacarejantes, de inteligência curta, cuja única função é botar ovos e serem transformadas em canja. Assim é compreensível que vocês não gostem da ideia de galinhas de Páscoa. Eu também não gosto.
Mas poderia ser “pombas de Páscoa”. Pombas são seres teológicos. Começando com a Arca de Noé. A se acreditar no relato do Antigo Testamento Noé, para se certificar de que o dilúvio acabara, soltou um corvo. Confesso que se eu fosse Noé teria adotado um método mais simples. Teria aberto a janela da arca e esticado o pescoço para fora. Eu veria, então, que a chuva havia terminado e que as plantas já estavam soltando os seus brotos. Será que Noé acreditava que o corvo, depois de voar, voltaria para dar um relatório? Como é que o corvo comunicaria os seus achados? O corvo ingrato não voltou. Desde então eles ficaram aves de má fama, injustamente. Vendo que o corvo não voltava e sem se dar
conta do método mais fácil que sugeri, ele soltou uma pomba. Ah! Ave maravilhosa! Voou, viu, apanhou um ramo verde de oliveira, e o trouxe para Noé! É preciso notar que as
oliveiras daqueles tempos extraordinários deveriam ser diferentes das oliveiras de agora. As oliveiras de agora certamente estariam mortas, depois de passar tanto tempo debaixo d’água. Oliveiras não são plantas sub-aquáticas. Foi então que, pelo galho de oliveira que a pomba lhe trouxera, Noé ficou sabendo que o dilúvio havia chegado ao fim. Desde então as pombas passaram a ser símbolos teológicos: símbolos de pureza, símbolos de paz. Uma das telas mais comoventes de Picasso é uma menina com uma pombinha nas mãos. De fato as pombas têm um jeitinho de mansidão. O que não acontece com os corvos negros de bico torto. Bom para os corvos, mau para as pombas. As pombas passaram a serem usadas como aves a serem sacrificadas no templo pelas razões mais incríveis. Se não me falha a memória as mulheres, terminado seu período menstrual de impureza, deveriam sacrificar pombas no templo para se purificarem. Pobres pombas! O templo era uma sangueira. Quem quiser saber mais sobre a sangueira do templo que leia o livro de Saramago, “O evangelho segundo Jesus Cristo”. Os corvos, pela esperteza do primeiro corvo que não voltou, ficaram livres desse triste destino. Vem então o Novo Testamento que sacraliza definitivamente as pombas, ao relatar que o Espírito Santo é uma pomba. Sobre isso leia-se o poema de Alberto Caeiro em que ele conta como Jesus voltou à terra, tornado outra vez menino. É lindo.
Mas poderia ser “pombas de Páscoa”. Pombas são seres teológicos. Começando com a Arca de Noé. A se acreditar no relato do Antigo Testamento Noé, para se certificar de que o dilúvio acabara, soltou um corvo. Confesso que se eu fosse Noé teria adotado um método mais simples. Teria aberto a janela da arca e esticado o pescoço para fora. Eu veria, então, que a chuva havia terminado e que as plantas já estavam soltando os seus brotos. Será que Noé acreditava que o corvo, depois de voar, voltaria para dar um relatório? Como é que o corvo comunicaria os seus achados? O corvo ingrato não voltou. Desde então eles ficaram aves de má fama, injustamente. Vendo que o corvo não voltava e sem se dar
conta do método mais fácil que sugeri, ele soltou uma pomba. Ah! Ave maravilhosa! Voou, viu, apanhou um ramo verde de oliveira, e o trouxe para Noé! É preciso notar que as
oliveiras daqueles tempos extraordinários deveriam ser diferentes das oliveiras de agora. As oliveiras de agora certamente estariam mortas, depois de passar tanto tempo debaixo d’água. Oliveiras não são plantas sub-aquáticas. Foi então que, pelo galho de oliveira que a pomba lhe trouxera, Noé ficou sabendo que o dilúvio havia chegado ao fim. Desde então as pombas passaram a ser símbolos teológicos: símbolos de pureza, símbolos de paz. Uma das telas mais comoventes de Picasso é uma menina com uma pombinha nas mãos. De fato as pombas têm um jeitinho de mansidão. O que não acontece com os corvos negros de bico torto. Bom para os corvos, mau para as pombas. As pombas passaram a serem usadas como aves a serem sacrificadas no templo pelas razões mais incríveis. Se não me falha a memória as mulheres, terminado seu período menstrual de impureza, deveriam sacrificar pombas no templo para se purificarem. Pobres pombas! O templo era uma sangueira. Quem quiser saber mais sobre a sangueira do templo que leia o livro de Saramago, “O evangelho segundo Jesus Cristo”. Os corvos, pela esperteza do primeiro corvo que não voltou, ficaram livres desse triste destino. Vem então o Novo Testamento que sacraliza definitivamente as pombas, ao relatar que o Espírito Santo é uma pomba. Sobre isso leia-se o poema de Alberto Caeiro em que ele conta como Jesus voltou à terra, tornado outra vez menino. É lindo.
Brincadeira de lado, o embaraço dos pais e a pergunta do menino revelam a confusão que marca essa festa. Ninguém sabe direito o que é que está sendo celebrado. E, para dizer a
verdade, acho que são bem poucos aqueles que fazem alguma celebração. Antigamente semana santa era coisa séria. Lembro-me da procissão do enterro, os panos roxos, a banda de música tocando a marcha fúnebre de Chopin, as matracas, as mulheres mais piedosas carregando pedras na cabeça, como penitência… Isso mesmo: as mulheres carregavam pedras na cabeça. Como é bem sabido, Deus gosta de ver os seus filhos e filhas sofrer. Isso para não dizer da quaresma que a antecede, tempo em que as hostes do mal, demônios de todos os tipos, assombrações, mulas sem cabeça, almas penadas, ficavam soltas e todo mundo tinha medo de sair à noite. Sempre havia alguém que relatava, pela salvação da mãe morta, que havia visto uma mula sem cabeça numa encruzilhada à meia-noite. Meia noite era a hora do medo. E no escuro ouvia-se o zunido sinistro dos berra-
bois. Semana Santa era um tempo metafísico, entre o céu e o inferno.
verdade, acho que são bem poucos aqueles que fazem alguma celebração. Antigamente semana santa era coisa séria. Lembro-me da procissão do enterro, os panos roxos, a banda de música tocando a marcha fúnebre de Chopin, as matracas, as mulheres mais piedosas carregando pedras na cabeça, como penitência… Isso mesmo: as mulheres carregavam pedras na cabeça. Como é bem sabido, Deus gosta de ver os seus filhos e filhas sofrer. Isso para não dizer da quaresma que a antecede, tempo em que as hostes do mal, demônios de todos os tipos, assombrações, mulas sem cabeça, almas penadas, ficavam soltas e todo mundo tinha medo de sair à noite. Sempre havia alguém que relatava, pela salvação da mãe morta, que havia visto uma mula sem cabeça numa encruzilhada à meia-noite. Meia noite era a hora do medo. E no escuro ouvia-se o zunido sinistro dos berra-
bois. Semana Santa era um tempo metafísico, entre o céu e o inferno.
Agora é diferente. Páscoa é domingo, pé de cachimbo, cachimbo é de barro, bate no jarro, jarro é de ouro, bate no touro,touro é valente, chifra a gente, a gente é fraco, cai no
buraco, buraco é fundo, acabou-se o mundo… Páscoa é fim de semana santa, feriado de três dias, a praia está esperando, hora de se preparar para a viagem…
Contou-me um sacerdote da Igreja Ortodoxa Russa que lá a Páscoa é uma grande festa. O comunismo não foi capaz de destruir a alma do povo. Pela manhã as pessoas saem pelas
ruas e se cumprimentam dizendo: “Cristo ressuscitou!” E o outro responde, com uma risada: “Sim, ele ressuscitou!” ( A obra sinfônica de Rimski-Korsakov “A grande Páscoa russa” é linda”. E agora percebo que faz muito tempo que não a ouço. ) . Entre nós, país onde 99% das pessoas acreditam em Deus ( acreditam porque acham que, se não acreditarem, é
capaz de ele, Deus, enviar algum castigo… ), a Páscoa é como uma casca de cigarra presa no tronco de uma árvore. Vazia. Morta. Não tem nada lá dentro. Mas já foi o corpo de
um ser vivo que, cansado de ficar preso na casca, criou asas e voou. A Páscoa, com seus ovos de chocolate, é celebração inconsciente de um tempo que não existe mais, tempo em que se acreditava. Os ovos de chocolate, vocês sabem, são tão ocos quanto as cascas de cigarra…
buraco, buraco é fundo, acabou-se o mundo… Páscoa é fim de semana santa, feriado de três dias, a praia está esperando, hora de se preparar para a viagem…
Contou-me um sacerdote da Igreja Ortodoxa Russa que lá a Páscoa é uma grande festa. O comunismo não foi capaz de destruir a alma do povo. Pela manhã as pessoas saem pelas
ruas e se cumprimentam dizendo: “Cristo ressuscitou!” E o outro responde, com uma risada: “Sim, ele ressuscitou!” ( A obra sinfônica de Rimski-Korsakov “A grande Páscoa russa” é linda”. E agora percebo que faz muito tempo que não a ouço. ) . Entre nós, país onde 99% das pessoas acreditam em Deus ( acreditam porque acham que, se não acreditarem, é
capaz de ele, Deus, enviar algum castigo… ), a Páscoa é como uma casca de cigarra presa no tronco de uma árvore. Vazia. Morta. Não tem nada lá dentro. Mas já foi o corpo de
um ser vivo que, cansado de ficar preso na casca, criou asas e voou. A Páscoa, com seus ovos de chocolate, é celebração inconsciente de um tempo que não existe mais, tempo em que se acreditava. Os ovos de chocolate, vocês sabem, são tão ocos quanto as cascas de cigarra…
Na tradição cristã mais antiga a semana santa era um teatro, o drama da vida dentro de uma casca de noz. Teologia mínima. Duas cenas apenas. Primeira cena: a morte e o seu horror parecem triunfar. Segunda cena: a vida sai do túmulo de pedra, deixando-o vazio como uma casca de cigarra.
A Adélia diz: “De vez em quando Deus me castiga, me tira a poesia. Olho uma pedra e vejo uma pedra…” Tem gente que ouve o canto das cigarras e ouve apenas o canto das cigarras. Tem gente que fala Páscoa e só vê ovo de chocolate. Pensam na ressurreição como algo aconteceu, faz muito tempo, num lugar distante. ( Impossível. mortos não ressuscitam. ) E pensam em algo que acontecerá de novo num tempo distante, muito longe, no futuro ( Impossível. Mortos não ressuscitarão.). Mas a poesia não conhece nem o passado e nem o futuro. O passado sobre que a poesia fala é presente na memória e nos sentimentos. O futuro sobre que a poesia fala é presente na
esperança. Assim os poemas da ressurreição falam sempre do presente. A Morte é agora. Nós somos o túmulo. “Quem anda duzentos metros sem vontade anda seguindo o próprio funeral vestindo a própria mortalha…’ Muita gente morreu e não percebeu. Mas a Ressurreição pode acontecer também agora.
esperança. Assim os poemas da ressurreição falam sempre do presente. A Morte é agora. Nós somos o túmulo. “Quem anda duzentos metros sem vontade anda seguindo o próprio funeral vestindo a própria mortalha…’ Muita gente morreu e não percebeu. Mas a Ressurreição pode acontecer também agora.
Tenho, no meu escritório, uma tela de Pierro della Francesca ( 1410 – 1492 ) chamada “Ressurreição”. A pedra do túmulocorta a tela em duas partes. Na parte de cima, com seu pé
sobre a pedra, o Cristo ressuscitado. Na parte inferior, encostados à pedra, os guardas adormecidos. Perguntam-me sobre o sentido da tela. Respondo que não sei o sentido da tela. As telas têm muitos sentidos. Eu só posso dizer os pensamentos que aquele quadro me faz pensar. E digo: enquanto
os guardas da morte estão dormindo, o divino que mora em nós sai do sepulcro. Sabem disso as cigarras. Caminhando hoje pela manhã na fazenda Santa Elisa eu ouvi o seu canto. Já haviam deixado suas cascas nos troncos das árvores. Agora são seres alados. Cantam e voam, a procura do amor…Acho que estão celebrando a Páscoa…”
Rubem Alves
sobre a pedra, o Cristo ressuscitado. Na parte inferior, encostados à pedra, os guardas adormecidos. Perguntam-me sobre o sentido da tela. Respondo que não sei o sentido da tela. As telas têm muitos sentidos. Eu só posso dizer os pensamentos que aquele quadro me faz pensar. E digo: enquanto
os guardas da morte estão dormindo, o divino que mora em nós sai do sepulcro. Sabem disso as cigarras. Caminhando hoje pela manhã na fazenda Santa Elisa eu ouvi o seu canto. Já haviam deixado suas cascas nos troncos das árvores. Agora são seres alados. Cantam e voam, a procura do amor…Acho que estão celebrando a Páscoa…”
Rubem Alves
A Ressurreição: Autor: Piero Della Francesca
Fonte: http://www.contioutra.com/um-texto-sobre-pascoa-por-rubem-alves/
Fonte: http://www.contioutra.com/um-texto-sobre-pascoa-por-rubem-alves/
sábado, 4 de abril de 2015
quinta-feira, 2 de abril de 2015
Eli Heil • criadora e criatura
"Eu sou a artista cuja mente ficou grávida cinco anos para renascer e nascer em borbotões. A arte para mim é a expulsão dos seres, contidos, doloridos, em grandes quantidades num parto colorido" ( Eli Heil)
"Uma vez o Harry Laus perguntou - Eli como é que eu vou te classificar? - Eu disse, ah meu filho, eu não tenho rótulo. Expressionista, outro diz primitivo, surrealista, arte pop, arte incomum, nem eles sabem como vão me classificar. Daí eu disse assim, ah coloca imaginária, mas num instante deu um clic na minha cabeça. Imaginária? Pois se eu nem imagino, já faço! " (Eli Heil)
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