quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Fagner -Traduzir-se





Uma parte de mim

é todo mundo:

outra parte é ninguém:

fundo sem fundo.



Uma parte de mim

é multidão:

outra parte estranheza

e solidão.



Uma parte de mim

pesa, pondera:

outra parte

delira.



Uma parte de mim

almoça e janta:

outra parte

se espanta.



Uma parte de mim

é permanente:

outra parte

se sabe de repente.



Uma parte de mim

é só vertigem:

outra parte,

linguagem.



Traduzir uma parte

na outra parte

- que é uma questão

de vida ou morte -

será arte?



"Traduzir-se" é um poema de Ferreira Gullar publicado em 1980, no livro "Na Vertigem do Dia". O poema foi musicado por Raimundo Fagner em 1981.

Embora tenha colocado, com rara beleza, a letra no clássico "Trenzinho do Caipira", de Villa LobosFerreira Gullar declarou não ter muita habilidade para colocar letra em música já pronta, o inverso, no entanto, é verdadeiro: a poesia de Ferreira Gullar é extremamente musical, muitas até parecem que foram feitas especialmente para serem musicadas.

O próprio Fagner, um amigo e admirador da obra de Ferreira Gullar, trabalhou, pelo menos, mais quatro poemas de seus poemas. São eles: "Contigo""Cantiga Para Não Morrer (Me Leve)""Menos a Mim" e "Rainha da Vida". Raimundo Fagner certamente não acredita na incapacidade do poeta em colocar letra em música pronta, certa vez, o cantor encaminhou um CD com várias músicas para que Ferreira Gullar colocasse a letra, e sobre este assunto Ferreira Gullar declarou:

"O caso do Fagner é diferente, ele me procurou, ele buscou meus poemas e nos tornamos amigos. Eu gosto muito dele, tenho uma grande amizade por esse cearense. De vez em quando ele me liga ou me escreve, até me pediu outro dia para que eu colocasse letras numas músicas que ele enviou num CD - por problemas técnicos a mídia não funcionou, ficando eu impossibilitado de ouvir as músicas."




sábado, 24 de setembro de 2016

com Nina Simone





A voz de quem não se calou.
Nina Simone foi literalmente a voz do movimento negro americano pelos direitos civis, nas reuniões e nos encontros, era sua música a responsável por acalmar os corações dos que tudo perdiam naquela lógica violenta e separatista intensificadas nas décadas de 50 e 60. Nina sempre sonhou em ser a primeira pianista clássica negra, mas fora reprovada na universidade, mesmo sabendo ter realizado um bom teste. Tal fato desencadeou uma mudança de planos na vida de Nina que foi ganhar a vida cantando blues em barzinhos e quanto mais crescia seu ativismo pelo movimento anti segregação, mas eram lhe fechadas as portas, as rádios, os palcos.
Depois de ter vivido altos e baixos e ter aberto seu coração e sua genialidade para o mundo, Nina declarou a uma entrevista para uma rádio europeia: "Se eu fosse uma pianista clássica eu teria sofrido menos". pouco antes de morrer Nina recebera uma carta de pedido de desculpas da universidade de música Curtis por sua reprovação no teste.
Nina Simone - Ain't Got No

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Sagração da Primavera



                                                                            por Ana Lucia Santana

A Sagração da Primavera, do compositor erudito russo Igor Stravinsky, subverte a estética musical do século XX, dando origem ao Modernismo. A célebre composição musical deste irreverente artista do século passado é hoje considerada um símbolo da musicalidade erudita, mas na época causou polêmica ao embalar o balé em dois atos criado pelo não menos rebelde Vaslav Nijinsky, coreógrafo também originário da Rússia.

Este espetáculo narra a trajetória de uma garota marcada para ser entregue como oblação à divindade primaveril, no auge de um ritual pagão, com o objetivo de conquistar para seu povo uma colheita proveitosa. Seu cenário foi arquitetado pelo artista plástico e arqueologista Nicholas Roerich, e a estréia se deu em pleno Théâtre des Champs-Élysées, na capital francesa, no dia 29 de maio de 1913.

Esta obra revolucionou praticamente todas as principais características da música de então, ou seja, o arcabouço do ritmo, a estrutura orquestral, o timbre, a forma, os aspectos harmônicos, a maneira como se utilizavam as dissonâncias, e o valor conferido à percussão, a qual sobrelevava a própria melodia, algo impraticável até este momento.



continue lendo aqui: http://www.infoescola.com/musica/a-sagracao-da-primavera/

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Texto interpretado pelo ator Domingos Montagner


Resultado de imagem para domingos montagner palhaço

"Eu brinco, eu sou palhaço. eu brinco, eu danço, eu ondulo, eu brinco com as crianças, eu quebro meu coração em direção ao risco porque eu sou  de circo. Eu brinco com a vertiginosa audácia do trapézio e lá no alto, no topo da lona, no meio de um salto mortal, eu sou capaz de roubar um holofote porque eu sou de circo. Eu sento num cavalo como quem senta numa poltrona, eu ando numa corda como quem anda numa avenida. Eu ando de bicicleta sem guidão, sem assento, sem pedal, sem roda, e com as mãos eu dinamizo dezessete laranjas, de tal forma que elas mais parecem estrelas iluminando o firmamento porque eu sou de circo.

sábado, 3 de setembro de 2016

Um Lindo texto de Rubem Alves, "Quando os filhos voam"

Sei que é inevitável e bom que os filhos deixem de ser crianças e abandonem a proteção do ninho. Eu mesmo sempre os empurrei para fora.Sei que é inevitável que eles voem em todas as direções como andorinhas adoidadas.
Sei que é inevitável que eles construam seus próprios ninhos e eu fique como o ninho abandonado no alto da palmeira…
Mas, o que eu queria, mesmo, era poder fazê-los de novo dormir no meu colo…
Existem muitos jeitos de voar. Até mesmo o vôo dos filhos ocorre por etapas. O desmame, os primeiros passos, o primeiro dia na escola, a primeira dormida fora de casa, a primeira viagem…
Desde o nascimento de nossos filhos temos a oportunidade de aprender sobre esse estranho movimento de ir e vir, segurar e soltar, acolher e libertar. Nem sempre percebemos que esses momentos tão singelos são pequenos ensinamentos sobre o exercício da liberdade.
Mas chega um momento em que a realidade bate à porta e escancara novas verdades difíceis de encarar. É o grito da independência, a força da vida em movimento, o poder do tempo que tudo transforma.
É quando nos damos conta de que nossos filhos cresceram e apesar de insistirmos em ocupar o lugar de destaque, eles sentem urgência de conquistar o mundo longe de nós.
É chegado então o tempo de recolher nossas asas. Aprender a abraçar à distância, comemorar vitórias das quais não participamos diretamente, apoiar decisões que caminham para longe. Isso é amor.