quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

O verde lá fora
iluminado
pela luz
matinal
parece um quadro
sem moldura
dá vontade
de tocar
de tão real
mas realidade
demais assusta

sábado, 25 de janeiro de 2020

no escritório
de paredes brancas
a máquina de escrever
na prateleira de ferro
guarda na memória
as crônica e poemas
de que foi coadjuvante
ao lado uma eletrola
dos tempos idos
em que as estórias ifantis
fizeram palco
eram contadas
principalmente no verão
onde a cigarra mostrava
que a vida sem poesia
de nada vale
onde a saracura
quebrava potes
e o sapo foi
a uma festa no céu
na verdade
em todas as estações
eram contadas
muitas estórias
desde o gibi
do tio patinhas
ao pequeno príncipe
em que os adultos
só conseguem ver
um chapeu no
desenho de uma criança
e ela vê uma "jibóia
digerindo um elefante"

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

na madrugada
o silêncio
é cortado
pelo rádio
do vizinho
que toca
saudosa maloca
de Adoniran Barbosa
e a frase
"Deus dá o frio
conforme o cobertor"
ecoou noite a dentro

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

O piano
A cerveja aberta
A poltrona amarela
O abajur aceso
O casal ao lado
E o pianista
Toca Valsinha
Do Chico

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

O rangido
Dos dentes
O tilintar
Da colher de chá
A torrada sendo triturada
A caneca cheia de leite
O farelo na toalha bordada
Pingos de café
No piso branco
Cheiro de bolo queimado
A borra do café
No canteiro das flores
O coador secando no varal
Um café orquestrado
E um domingo qualquer
A formiga
Atravessa
O mármore frio
No quintal
Uma ponte
Faz sombra
Pros peixes
No verão
O bebê chora
No prédio vizinho
O construtor
Martela
O rítmo
Da vida
A mesa
A garrafa amarela
O queijo
No prato branco
As velas
Na cesta de vime
As xícara no prato verde
A mesa posta
São oito da manhã
E o verde lá fora
Continua imenso

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

os dedos
apressados no teclado
a brisa que vem do mar
entra pela janela amarela
os cabelos presos e grisalhos
lembram a avó paterna
não só os cabelos mas o jeito
de andar e falar
ela está sempre presente
sempre ouve isso dos parentes e conhecidos
era sempre carregada pela avó
desde sempre
nos passeios ao centro
e idas ao morrinho como ela chamava
uma mulher de uma força interior
se precisasse comandar uma tropa
ela estaria pronta
a vida lhe moldou o olhar
e a firmeza das mãos
ela continua viva e forte
na ternura do olhar
e no afago das mãos
Pelos
Pelos dos braços
Pelos das pernas
Pelos quais 
Peleei a vida inteira
uma taça
de vinho
um prato
de macarrão
uma toalha
xadrez
um garfo
uma faca
e um poema
em ação
O céu
Pincelado de branco
As folhas
Dançam um balé russo
O filme da noite passada
Uma gargalhada nervosa
Sedenta por um pouco
De amor
Deitada na cama
Tentando ler o
Livro de cabeceira
Um sono pesado
Insiste em chegar
Fecho os olhos
Mas os ouvidos
Estão abertos
Pra ouvir
A conversa
Dos sabiás

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

A cadeira branca
Na varanda da frente
Escuta todos os dias
O canto da cigarra
Que vem cantar
No pé de jabuticaba
A cantoria às vezes
Segue noite a dentro
Foi o que aconteceu
Na noite passada
A lua estava cheia
As pessoas foram pra
Beira da praia apreciar
O reflexo da lua no mar
E a cigarra não parava
De cantar
As palavras
me faltam
nessas horas
de angustia
em que o céu
está baixo
com uma cor amarelada
o barulho do mar
chega bem perto
da janela
o grilo do mato
solta um acorde
e a máquina de lavar
gira pra lá
e pra cá


A chuva veio
Pra refrescar o dia
Da rede na sacada
Em que ele sempre ficava
Dá pra imaginar de onde saía
Tanta imaginação pras crônicas
E poemas que cotidianamente escrevia
Cercado de uma natureza privilegiada
Onde as aracuãs, as saracuras, a gralha azul, as cigarras, o anú branco, o bem-te-vi são visitas constantes
A predileção dele era pelas saíras que faziam ninho na árvore em frente
Tanta foi a paixão por esse lugar que o primeiro livro que escreveu foi dedicado à aldeia como ele apelidou
Neste momento ocupando o seu lugar na rede
Tento seguir olhando a aldeia com o jeito que aprendi com ele
Beijo Pai!!!!!
na areia
da praia
duas crianças brincam
a avó sempre por perto
a gaivota veio brincar também
o pescador lança o anzol
o mar muito agitado
o vento indica a presença da água viva
lembranças de queimaduras na infância
as mães na época sempre tinham seus remédios caseiros
o sol está a pino
hora de ir embora
A moça sentada
Na cadeira vermelha
O piso branco
A mulher de vestido azul
Sentada no sofá marrom
O verde da mata
O céu cinzento
O tapete amarelo
A gata de olhos verdes
Nesse domingo colorido
As lembranças são em preto e branco

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

A mesma cena
A mesma mesa
A mesma sala
Mas a cena
Que dança 
Lá fora
É um poema
Diferente a cada dia
Jaz aqui
o livro empoeirado
sobre a mesa de vidro
o amor ébrio
tenta se equilibrar
a noite de um tom púmbleo
ecoa a música 
do sapo martelo
os grilos fazem
a segunda voz
o vento sul
o coro
e a gralha azul
dorme em berço 
esplêndido
Os livros empilhados
A prateleira de vime
A cadeira vermelha
O tapete esticado
Sob o sofá marrom
Os enfeites de natal
Já parecem ultrapassados
O café recém passado
Uma boa pedida
Pra essa manhã nublada
A palmeira solitária
no jardim da praça
por onde todos passam
mulheres
homens
crianças e anjos
ela tá sempre alí
ereta embelezando
a cena
manhã 
tarde e
noite
alguns dias ela 
se mostra mais feliz
com suas folhas eriçadas
outros nem tanto
com as folhas caídas
mas feliz ou triste
ela continua
enfeitando a praça