Criolo


Há cerca de um mês, a primeira escola da rede pública de São Paulo foi ocupada por alunos contrários ao plano do governo estadual de reorganização do ensino. De lá para cá, houve quase todo o tipo de coisa: aumento exponencial dos colégios ocupados, pressão oficial para que os alunos saíssem, protestos dentro e fora das escolas, com cenas de truculência da PM, recuo do governador Geraldo Alckmin (PSDB) e queda do Secretário da Educação.
Mas foi neste fim de semana que passou, com uma espécie de virada cultural realizada em parte das quase 200 unidades tomadas por estudantes em todo o Estado, que algo se concretizou. Não foi apenas a presença de artistas, mesas de debates com escritores e o apoio de personalidades ao movimento. Foi a consolidação de um modelo que começou a ser experimentado pelos estudantes e que agora eles querem reproduzir no dia a dia da escola.
Com as ocupações, a rotina dos colégios ficou diferente. Os estudantes assumiram as atividades de manutenção das unidades: ficaram responsáveis pela limpeza e pela cozinha. A vizinhança participou doando alimentos e produtos de limpeza. E outras pessoas ajudaram organizando debates, oficinas e shows como os do fim de semana.
Ao longo desse quase um mês de ocupação, voluntários foram responsáveis por um currículo pouco ortodoxo. Os alunos tiveram aulas sobre urbanismo e especulação imobiliária, questões indígenas, movimento negro, comunicação não violenta e questões de gênero, além de oficinas de estampagem de camisetas, jornalismo e dança, entre outras coisas.
"Minha relação com a escola mudou. A gente agora se sente dono dela e não tem volta. Queremos que a escola tradicional seja mais como a escola ocupada."
Gabrielle Menezes
da Escola Estadual Godofredo Furtado, em Pinheiros
FOTO: GUILHERME PRADO/NEXO
Ocupação das escolas

O processo de tomada de decisões nas ocupações também parece estimular uma vontade de mudança. Os alunos, que se organizam em assembleia e decidem coletivamente, estão agora questionando o modelo de ensino em que um professor fala enquanto os estudantes anotam calados. Querem mais debate e troca nas aulas.
"Vamos perguntar o porquê em sala de aula: por que a gente tem de sentar e ficar 50 minutos para ver uma coisa que pode ser dita de um jeito diferente? Vamos questionar as imposições da direção. Não vamos ficar quietos, literalmente."
Laura Bueno
Estudante, 15 anos, em entrevista ao O Estado de São Paulo