O professor José Eustáquio Romão tem muitas histórias para contar. Basta dizer que ele acompanhou de perto o pedagogo brasileiro Paulo Freire por 11 anos, de 1986 até 1997, quando morreu o autor de “Pedagogia do Oprimido”, considerado por muitos um dos maiores pensadores da educação no mundo. Graduado em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG) e com doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), Romão trabalhou com Freire, quando este foi secretário de Educação da Prefeitura de São Paulo, durante a gestão de Luiza Erundina [eleita pelo PT e prefeita de 1989 a 1992].
José Eustáquio Romão é diretor e professor do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Nove de Julho (Uninove), de São Paulo, e também integra o Conselho Nacional de Educação, na Câmara de Educação Superior. Ele tenta efetivar a obra de seu mestre nessa esfera do ensino, mas faz uma análise contundente do quadro da educação: “No Brasil, a carreira do magistério está vinculada ao grau que você leciona. Então, quem leciona na educação infantil tem um salário pequeno. Ora, isso é genocídio pedagógico. Nos países em que as coisas funcionam melhor nesse aspecto, a carreira está vinculada à titulação”, explica.
Diretor-fundador do Instituto Paulo Freire, onde cuida das relações internacionais, Romão continua divulgando a obra do educador pelo mundo. “Hoje, uma pesquisa dos norte-americanos comprova que ‘Pedagogia do Oprimido’ é o livro mais lido no mundo na área das ciências sociais”, exalta. Mas qual é o objetivo de propagar os ideais de Freire para a educação no mundo de hoje? “Tentamos fazer o que ele mesmo sempre falou: tentamos reinventá-lo e não repeti-lo.”
Marcos Nunes Carreiro — Como está sendo feita o que o sr. chama de “reinvenção” de Paulo Freire para a educação superior?
Primeiramente, Paulo Freire foi, por lei, transformado em patrono da educação brasileira. Por isso mesmo, em nosso entendimento o “ethos” freiriano tem de estar desde a educação infantil até a pós-graduação. Paulo Freire tornou-se conhecido no mundo inteiro pela alfabetização de adultos e estamos tentando reinventá-lo na educação superior. Tanto que, quando lançaram minha candidatura para o Conselho Nacional de Educação (CNE), me perguntaram se eu iria para a Câmara de Educação Básica, porque fui secretário municipal de Educação, secretário nacional da Undime [União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação], mas eu preferi ir para a Câmara de Educação Superior. Também trabalho dirigindo um programa de pós-graduação, doutorado e mestrado, em Educação.
Pesquisamos durante uns 15 anos até que conseguimos localizar os manuscritos originais do livro “Pedagogia do Oprimido” e entender por que essa obra é tão lida no mundo. A versão que estamos vendo foi uma versão censurada pelos norte-americanos. Paulo Freire estava vivendo no exílio em Santiago do Chile, concluindo o “Pedagogia do Oprimido”, quando foi convidado a dar aulas na Universidade de Harvard. Os americanos pegaram os originais datilografados e publicaram o livro censurando-o. Por exemplo, o capítulo sobre a teoria da ação revolucionária não existe em nenhuma edição no mundo. E veja que é o livro mais traduzido nas ciências sociais em todo o mundo.
Em 2013, resgatamos os originais manuscritos, que estavam com um ministro do então presidente Salvador Allende — quando Paulo Freire deixou o Chile, quis dar um presente ao ministro e resolveu passar-lhe o livro escrito à mão. Esse manuscrito é o que vai ficar na Biblioteca Nacional. Nele, vemos que a teoria de Paulo Freire se aplica a qualquer grau da educação, vemos a real importância de seu trabalho. Ele criou um método de alfabetização de adultos, mas a obra dele não se resume a isso.
Estamos agora pesquisando em todas as universidades do mundo — são 36 institutos Paulo Freire espalhados pelo mundo — e encontramos gente trabalhando em comunidades freirianas em todo lugar. Encontrei seu método sendo desenvolvido na Mongólia, na Coreia, na Finlândia, na China. No ano passado, fui trabalhar com a Academia de Ciências da China. Lá, queriam que decifrássemos algumas expressões incompreensíveis a eles, entender os fundamentos freirianos sobre o desenvolvimento sustentável. Eu confesso que, particularmente, não tinha enxergado essa teoria em Paulo Freire, como ele não escreveu nada também sobre educação superior. Pelo menos não se tem notícias disso, com exceção de uma entrevista de quatro páginas em que ele dá opiniões sobre o papel das universidades católicas — ele era católico, inclusive tem uma frase interessante e famosa dele, barbudo, em meio a outros dois barbudos, Jesus Cristo e Karl Marx.
Mas descobrimos recentemente que ele ministrou um seminário no México, na Universidade Autônoma do México, então a maior universidade pública do mundo, com quase 1 milhão de alunos — agora tem uma no Brasil, a maior do mundo, com 1,2 milhão de alunos — e ele, numa roda de intelectuais do mundo inteiro, durante uma semana discutiu o papel do ensino superior e dos intelectuais. Resgatamos as gravações disso, estamos transcrevendo e vamos tentar ver o que ele pensava sobre ensino superior, embora sua obra nos permita repensar a universidade, essa instituição quase milenar.
Cezar Santos — O sr. falou que os chineses precisaram que se explicasse a eles os conceitos freirianos. Mas há críticas de que Paulo Freire precisa ser traduzido até para os brasileiros, porque o livro “Pedagogia do Oprimido” é simplesmente confuso, ilegível em muitos trechos, com muitas sentenças que não fazem nenhum sentido, inclusive com excesso de neologismos, repetições e coisas assim.
Sim, você tem razão, no Brasil há uma crítica muito forte à obra do Paulo Freire. Mas, geralmente, os intelectuais têm muito medo dele e por isso o criticam, dizendo que ele era um gênio intuitivo, mas não científico. Essa é a primeira crítica, que é uma maneira de desqualificá-lo. Durante muito tempo pensei que isso se devia ao fato de que ele não tinha títulos. Freire nunca fez pedagogia, nunca fez mestrado nem doutorado. Fez um curso de Direito à noite, mas jamais exerceu a profissão; desistiu na primeira causa e se dedicou à educação. Mas os americanos, que são muito espertos e não se baseiam em títulos, mas no conteúdo da obra, o convidaram a dar aulas em Harvard. Ele passou um ano em Harvard dando aulas.
É verdade que Freire criou muitos neologismos? Sim, é verdade. Um doutorando meu fez, há três anos, uma tese sobre o neologismo em Paulo Freire. Ele pesquisou o porquê de isso ocorrer. Em sua tese, esse pesquisador sustenta que na língua portuguesa, e em qualquer língua do mundo, há alguns pensamentos ainda sem palavras para traduzi-los. Então, é preciso inventar essas palavras, porque as línguas são dinâmicas. Por exemplo, ensino e aprendizagem são um fenômeno só, mas a língua portuguesa não tem uma palavra apenas para dizer isso; as línguas eslavas têm. Em russo, existe uma palavra que quer dizer, ao mesmo tempo, “ensinar e aprender”.
Paulo Freire era um pesquisador de etimologia das palavras, um verdadeiro linguista. Ele então criou, na “Pedagogia do Oprimido”, a palavra “dodiscência”, que é a docência e a discência ao mesmo tempo, quem ensina aprende e quem aprende ensina, que é um dos princípios de Paulo Freire.
Ele criou muitos neologismos, mesmo. Mas eu acho que a rejeição a ele não é por causa disso. É, primeiramente, porque ele ameaça sobre o território dos intelectuais. Também não é por causa de falta de títulos, não, até porque ele recebeu 36 títulos de doutor “honoris causa” pelas maiores universidades do mundo. Hoje, estou convencido de que a rejeição é porque ele diz que a ciência só vai avançar — e a humanidade com ela — quando os oprimidos fizerem ciência. Isso, sim, é uma ameaça ao intelectual. O segundo fator de rejeição é que, ao pregar, em qualquer grau de ensino, que o currículo não pode ser “pré-dado”, mas tem de ser construído juntamente entre educador e educando, a partir desse momento os teóricos de currículo raciocinaram que o conceito freiriano de educação não tem currículo. Ora, há currículo, só que não é “pré-dado”, mas, sim, fabricado no processo de aprendizado.
E a terceira rejeição é das elites. Nas passeatas contra o governo Dilma, apareceram alguns cartazes contra Paulo Freire, algo como “chega de Paulo Freire!”. Não sei ao que essas pessoas estavam se referindo, porque Paulo Freire nunca foi aplicado na educação brasileira. O fracasso da educação brasileira atual é justamente porque não se aplica Paulo Freire. Estive em alguns dos países classificados pela Unesco como os melhores sistemas educacionais do mundo e eles estão aplicando Paulo Freire.
Cezar Santos — Quais, por exemplo?
Na Coreia do Sul, na Finlândia, nos Estados Unidos, também. Paulo Freire é hoje o pensador da educação mais estudado nos Estados Unidos. Aqui, nós não o aplicamos. Fomos ver a experiência que ele, com um grupo de estudantes, aplicou em Angicos (RN), há mais de 50 anos. Freire e um grupo de estudantes começaram com uma turma de 20 e poucos camponeses na alfabetização e terminaram com mais de 400. Todos aptos a ler, isso em 40 horas de trabalho. Não foi milagre nem varinha de condão, foi coisa muito simples. Voltamos lá e fomos conversar com gente que foi alfabetizada naquela época, para ver se tinha havido regressão, e ouvimos também estudantes que ajudaram Freire naquela experiência.