sábado, 30 de setembro de 2017

Chico Buarque - Futuros Amantes






Futuros Amantes

Chico Buarque




Não se afobe, não

Que nada é pra já

O amor não tem pressa

Ele pode esperar em silêncio

Num fundo de armário

Na posta-restante

Milênios, milênios no ar



E quem sabe, então

O Rio será

Alguma cidade submersa

Os escafandristas virão

Explorar sua casa

Seu quarto, suas coisas

Sua alma, desvãos



Sábios em vão

Tentarão decifrar

O eco de antigas palavras

Fragmentos de cartas, poemas

Mentiras, retratos

Vestígios de estranha civilização



Não se afobe, não

Que nada é pra já

Amores serão sempre amáveis

Futuros amantes, quiçá

Se amarão sem saber

Com o amor que eu um dia

Deixei pra você








terça-feira, 26 de setembro de 2017

com Ruy Espinheira Filho





Resultado de imagem para ruy espinheira filho


CANÇÃO MATINAL



Acorda bem cedo o homem
da casa de telha-vã
e abre janela e porta
como se abrisse a manhã.

E eis que a vida não é mais
nem triste, nem só, nem vã.
É doce: cheira a goiaba
e brilha como romã

orvalhada. E ele caminha,
o homem, com passos de lã
para em nada perturbar
a quietude da manhã.

Já não há mágoas de perdas
nem angústias de amanhã,
pois a alma que há na calma
entre a goiaba e a romã

é a própria alma do homem
da casa de telha-vã,
que declara a noite morta
e acende em si a manhã.

(Ruy Espinheira Filho ) 

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Ânima - Tribalistas





Ânima

(Tribalistas)


Numa outra dimensão

Não tinha teto nem chão

Não havia início nem final



Eu caí numa placenta

No fim dos anos sessenta

No hemisfério sul ocidental



Da onde eu vim

Eu não trouxe mala

Não trouxe nada



Não trouxe cor

Eu não trouxe massa

Só trouxe alma



Deixa ser e deixa estar

Deixa ir, deixa ficar

Deixa quieto, deixa o céu no mar



Deixa a nuvem, deixa o ar

Deixa a pluma flutuar

Deixa o tempo, deixa circular



Pra onde eu vou

Eu não levo casa

Não levo nada



Vou nesse voo

Eu não levo peso

Só levo asa



fonte: https://www.letras.mus.br/tribalistas/anima/


quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Edgar Morin - A demonização do outro





"Pois o específico das relações entre seres humanos é que o outro é, ao mesmo tempo, diferente e parecido conosco. ele é diferente por sua singularidade, suas características próprias, sua cultura, seu caráter. Mas é parecido conosco pela capacidade de sofrer, de amar, de chorar, de rir, de refletir. "



"Cada um mente a si mesmo, quer esquecer suas fraquezas, suas carências e coloca o outro como vilão, o malvado, que tem fraquezas e carências. "



(Edgar Morin)

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

com Manoel de Barros

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Eli Heil - criadora e criatura





"Uma vez o Harry Laus, perguntou, Eli como é que eu vou te classificar? Eu disse, ah meu filho eu não tenho rótulo...expressionista, outros diz primitiva, outros diz que eu sou surrealista, diz arte pop, arte incomum, nem eles sabe como vão me classificar, né. Daí eu disse assim, coloca imaginária, eu disse assim pra ele né, daí no mesmo instante deu um clic na minha cabeça. Imaginária?  Pois se eu nem imagino já faço !!! " (Eli Heil   -  1929/2017 )