sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Competências Socioemocionais

"Mais exercícios, mais repetição e mais testes podem até resultar em uma nota maior, mas não prepararão o aluno de forma integral e, muito menos, darão conta de desenvolver todas as competências que ele necessita para enfrentar os desafios do século 21. Enquanto o mundo abre espaço e cobra que os jovens sejam protagonistas de seu próprio desenvolvimento e de suas comunidades, o ensino tradicional ainda responde com modelos criados para atender demandas antigas. A realidade é que o ser humano é definitivamente complexo e, para desenvolvê-lo de maneira completa, é necessário incorporar estratégias de aprendizagem mais flexíveis e abrangentes.
Uma das saídas para reconectar o indivíduo ao mundo onde vive passa pelo desenvolvimento de competências socioemocionais. Nesse processo, tanto crianças como adultos aprendem a colocar em prática as melhores atitudes e habilidades para controlar emoções, alcançar objetivos, demonstrar empatia, manter relações sociais positivas e tomar decisões de maneira responsável, entre outros. Uma abordagem como essa pode ajudar, por exemplo, na elaboração de práticas pedagógicas mais justas e eficazes, além de explicar por que crianças de um mesmo meio social vão trilhar um caminho mais positivo na vida, enquanto outras, não.
Longe de ser um modismo, a preocupação com o desenvolvimento dessas características sempre foi objetivo da educação e precisa ser entendido como um processo de formação integral, que  não se restringe à transmissão de conteúdos. Então o que muda? Para que consiga alcançar esse propósito, a inclusão de competências socioemocionais na educação precisa ser intencional."

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Lições Transformadoras com Tião Rocha





"É possível sim fazer boa educação debaixo de um pé de manga. E aprendemos também que educação é alguma coisa que só acontece no plural, porque pra que haja um processo educativo são necessários no mínimo duas pessoas, o EU e o OUTRO. Educação não é o que eu tenho e o que o outro não tem, mas aquilo que eles trocam."

(Tião Rocha, Educador )

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

As notas estão com os dias contados nas escolas francesas!



Alunos de uma escola primária de Caen, no noroeste da França.

Daniella Franco
As notas estão com os dias contados nas escolas francesas. O Conselho Superior dos Programas, órgão do Ministério da Educação francês, elaborou uma proposta para abolir o sistema de avaliação através das notas, que na França vão de zero até 20, e substituí-las por uma análise mais geral das competências dos alunos. O projeto será discutido em uma conferência nacional nesta quinta e sexta-feira (11 e 12), em Paris.
Se o projeto for aprovado, caberá ao professor avaliar as capacidades de cada estudante através de conceitos e pareceres individuais. O docente utilizará critérios como o domínio da língua francesa, a capacidade de comunicação, formas e métodos de aprendizado, a postura dos estudantes como cidadãos, sua compreensão e observação do mundo, entre outros.
O objetivo, segundo o Conselho Superior dos Programas, é diminuir as desigualdades, a concorrência, a pressão e estimular os alunos a evoluir nas áreas onde encontram dificuldades. O próprio presidente francês, François Hollande, chegou a classificar o sistema de notas das escolas nacionais como “um castigo” e não como uma forma de avaliar a capacidade dos estudantes.
Para a presidente do Conselho de Avaliação do Sistema Escolar, Nathalie Mons, o sistema atual de avaliação não é justo. “Em algumas escolas, tirar uma nota 12, que está muito próxima da média, não é um bom resultado. Já em estabelecimentos mais exigentes, obter um 12 pode ser considerado ótimo. Ou seja, percebemos que ainda há muita desigualdade nas instituições de ensino”, considera.
Atraso nas reformas
Sistemas similares sem as tradicionais notas já vêm sendo utilizados há muitos anos por países europeus onde a educação é considerada de alto nível, como Suécia, Dinamarca e Alemanha. Na França, se for aprovado, o novo sistema pode começar a ser testado em 2015.
Para Denis Adam, secretário nacional do setor de educação da União dos Sindicatos Autônomos franceses (Unsa) ainda há muita resistência para implementar reformas nas escolas francesas. “Temos um discurso paradoxal sobre isso. Os pais esperam que seus filhos sejam avaliados como quando eles eram estudantes, com a consciência do trauma que isso gerou neles quando recebiam notas ruins”, diz.
Nathalie Mons lembra que não é só a França que é inflexível a mudanças na educação. “Em todos os países que mudaram seu sistema de avaliação foi extremamente complicado realizar um debate na sociedade civil”, ressalta.
O motivo, segundo ela, é que para os pais, a vantagem das notas é que elas mostram objetivamente o desempenho de seus filhos. “Ou seja, se os resultados estão acima de 10, eles estão tranquilos, mas, se as notas estão abaixo da média, há algo de errado. Mas essa clareza é falsa”, garante.
Falta de esclarecimentos
O engenheiro português Pedro David é pai de dois meninos que estudam em escolas francesas. Ele reclama da falta de esclarecimentos sobre o funcionamento do sistema que pretende abolir as notas. “Ainda não entendi muito bem como eles querem aplicar essa reforma. Se for feita uma correspondência exata entre duas escalas de avaliação, não vai servir para nada. Além disso, não acredito que a sociedade francesa vá se adaptar facilmente a esse novo sistema”, confessa.
Nathalie Mons compreende a dificuldade dos pais em relação às mudanças. Para ela, é necessário que a comunicação sobre essas reformas na educação também seja aprimorada. “Se aplicarmos outros tipos de avaliação, é preciso que eles sejam facilmente interpretados pelas famílias. E que algo mais seja feito em termos de informação aos pais sobre a aprendizagem de seus filhos”, estima.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

"O que você quer ser quando crescer? A resposta de Logan, um menino de 13 anos é: "Ser feliz!"





"Logan La Plante tem 13 anos e conta que quando se é criança os adultos fazem a seguinte pergunta:"O que você quer ser quando crescer?" Ele diz que a maioria irá responder skatista, surfista, etc. Fala que os adolescentes não aprendem a ser felizes e nem saudáveis nas escolas. Que isso é deixado de lado. Ele pergunta como seria a educação se fosse baseada em ser feliz e saudável? Logan usa o termo "hackear" a educação, como uma forma de torná-la mais criativa, buscando o que lhe interessa através da internet, amigos e família. Ele saiu da escola tradicional aos nove anos e participa de um Instituto de esqui, onde ele escreve sobre suas experiências e interesses. Ele percebeu a diferença e motivação para estudar quando existe interesse.

Logan termina a sua fala dizendo que :  ",,,se você me perguntar o que quero ser quando crescer, eu sempre vou saber que quero ser feliz."

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Um modelo escolar que estimula a independência e autonomia de seus alunos!


Autonomia alunos Massachusetts

Uma escola em Massachussets(EUA) com um jeito diferente de aprendizagem. A ideia é a de que os alunos se tornem responsáveis pelo o que querem aprender. A diretora da escola diz que perdiam muito tempo em dizer aos alunos o que eles deveriam aprender em vez de perguntar o que eles gostariam de aprender.
Leia a entrevista na íntegra aqui:http://porvir.org/porfazer/projeto-da-autonomia-para-alunos-criarem-propria-escola/20141205

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Verdade, por Carlos Drummond de Andrade



                   google imagem

Verdade

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

( Carlos Drummond de Andrade)

domingo, 23 de novembro de 2014

entrevista com Kaká Werá





"A vida,através da natureza manifesta o tempo todo felicidade. Você vai perceber que as pessoas sempre estão mais felizes quando buscam o sol, a praia, as águas da cachoeira, quando buscam se reunir em volta de um fogo numa lua cheia."
(Kaká Werá)

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Cesar Callegari, do Conselho Nacional de Educação fala sobre a polêmica em relação ao livro, "Por uma vida melhor"(livro lançado em 2011)



"É dever da escola e de todo professor estabelecer todos os meios para que se dê na plenitude a comunicação e a expressão, desses meninos, dessas crianças, pra que trabalhando exatamente as suas expressões, que vem da sua família, do seu meio, frequentemente da roça, em lugares do Brasil que não tiveram acesso a chamada lingua culta e tudo mais, pra que isso seja trabalhado, aproveitado sempre, mas na direção de perceber e fazer com que essas crianças e jovens conheçam a linguagem chamada universal. Que é a norma culta, é a linguagem culta. Quando falamos que a escola deve aproveitar e é isso que esse livro diz (Por Uma Vida Melhor(2011)), reconhecer, respeitar, não haver discriminação de natureza linguistica, não taxar uma menina ou um menino ou um jovem porque ele vem falando errado, trazendo exatamente formas de se expressar, da sua localidade ou do seu meio social, ele não pode ser inibido em torno da não expressão. E, portanto, trabalhando essas circunstâncias todas que se apresentam no meio na escola, que são as mesmas circunstâncias que acontecem na rua, nas baladas, na linguagem no computador ou  alguém pode condenar ou desconhecer que uma parte grande da comunicação em alta velocidade de crianças e jovens hoje se dá inclusive em torno de uma lingua escrita que é frenquentemente, nós nem conseguimos reconhecer. Tamanha são as abreviações, palavras inventadas, quer dizer, isso é norma culta? as pessoas e crianças vão ser condenadas pra isso? não. O que nós pensamos e aí eu concordo integralmente com a postura dessa autora( do livro, Por Uma Vida Melhor(2011)), e até daqueles que integraram a comissão que selecionou essa obra, entendendo como importante contribuição pra educação brasileira, é dizer que toda forma de expressão é uma forma social."
(Cesar Callegari)     

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Uma excelente entrevista com a pediatra, Maria Aparecida Moysés




A pediatra Maria Aparecida, fala sobre do cuidado que deve haver em se dar algum diagnóstico para uma criança ou jovem. Ela considera que deve ser observado a subjetividade de cada indivíduo, como a maneira de aprender, a maneira de agir, o entorno da vida desses jovens. Fala sobre a suspeita da existência de alguns diagnósticos, como por exemplo o transtorno de déficit de atenção. Ela diz que mesmo que acreditasse que essa "doença" exististe ela jamais prescreveria medicação, no caso ritalina. Comenta dos perigos na utilização de medicação de forma indiscriminada. Ela não daria a medicação nem para seu filho, ela diz que daria Rita Lee.
Fala da importância de se escutar a criança. observar se ela tem algum sofrimento. O problema pode estar na família, na escola , nas relações sociais.
 No final da entrevista ela recomenda aos pais o seguinte: "olhem e escutem os seus filhos. O que é que eles estão te dizendo. Qual é o conflito que eles estão vivenciando. E como é que a gente pode ajudar.Eu acho que se os pais conseguirem enxergar as crianças para além de um diagnóstico, encontrando a criança, já vai ser um avanço muito grande."

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

com Manoel de Barros

"O poeta tem esse dom de transformar através da palavra as coisas. Eu acho isso, sinceramente, uma doença, uma disfunção cerebral. Eu não sou um cara normal não. O poeta não é normal, tem um olhar enviesado. Eu tenho esse olhar"
Manoel de Barros

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

"A ESCOLA QUE NÃO PRECISARÁ MAIS EXISTIR" por Ana Thomaz

para nossa família, o unschooling continua sendo a melhor escolha


ja são 7 anos nessa jornada que tem cada vez mais se apresentado como a melhor possibilidade para nosso modo de vida

como nunca fomos ativistas de nenhum movimento contra a escola, estamos sempre abertos para todas as possibilidades

nesse ano tive a alegria de conhecer uma professora (como acredito que muitas outras sejam) encantadora
uma pessoa que ama seus alunos
vibra e cresce junto com eles

essa professora da aulas em uma escolinha rural da cidadezinha onde vivo
(leia os diminutivos pela ternura bucólica de nossas paisagens)

oportunidades foram sendo criadas e assim começamos uma parceria para fortalecer e desabrochar todo amor que essa professora tem por seu oficio

fomos juntas criando um cotidiano escolar que segue totalmente as leis de diretrizes e base do governo, mas que desinveste completamente os hábitos e crenças da escolaridade

surge assim uma escola desescolarizada

desescolarizada de crenças, de hábitos, de desconexões, de ensino vazio, de hierarquia, de padronizações…

estou la diariamente assistindo de perto toda potência que tem um processo como esse

não existe currículo, nem classes, tampouco conteúdo pelo conteúdo 

mas existe muita presença, muito trabalho sobre os adultos, muita observação sem julgamento

não existem ameaças, nem recompensas, tampouco explicações especuladoras

mas existe muito acolhimento, limites, inspirações, conexões

existe antes de tudo um amor incondicional e aceitação plena por cada criança 

na vida pratica os projetos vão surgindo de modo surpreendente e muito vivos

ja tivemos um projeto de
fazer e empinar pipas
fazer e descer com carrinho de rolemã
fazer e desfazer cavalinhos de barro
pintar, limpar e embelezar o espaço

criamos infinitas mandalas
montamos quebra-cabeças dificílimos 
andamos de perna de pau
escrevemos cartas de amor
desenhamos nossas emoções

visitamos a ecovila do querido hiroshi
nos inspiramos na fazenda da serrinha
soltamos pião
fizemos pão de queijo

pular corda, dançar, cantar, correr, brincar, rir muito e chorar de vez enquando, faz parte do nosso cotidiano

tem surgido uma onda de meditações, vamos ver onde isso vai dar

nossos livros são lindos e bons de ler
escrever é a pratica preferida de alguns
fazer contas o desafio diário de outros

e assim passam os dias, e com a chegada do final do ano, vai dando um aperto no coração só de saber que vamos nos separar por um tempão

esse é um brevíssimo relato de uma escola rural publica, que com a confiança de um diretor por uma professora inspirada, tem sido possível transmutar o velho paradigma escolar

o processo tem se baseado na confiança de que toda criança ainda está bem próxima de sua força potente e de sua pulsão de vida
o que queremos é potencializar a potência de cada um
e alinhar o propósito de vida que cada potência de modo muito singular traz na sua essência

cada qual no seu ritmo vai surgindo uma composição onde aparecem as provocações, os antagonismos, as alianças
e assim vamos fortalecendo a capacidade de vivermos na diferença
na horizontalidade cheia de singularidades saltitantes

foram até então 4 meses de dedicação diária a essa realidade que estamos criando 

adoraria convidar a todos para presenciar isso de perto, mas claro que não é possível pois certamente iria desviar muito do olhar principal - a formação íntegra e integral de cada criança nessa jornada

nesse momento as presenças mais desejadas alem das crianças, são a de seus pais, para que possam se integrar com esse processo e ampliarem para seus lares e para comunidade

e no futuro sabe o que eu vejo? 
a possibilidade dessa escola não precisar mais existir
podendo tornar um centro de encontros, trocas e conexões de uma comunidade responsável por suas crianças 

esse é o grande paradoxo 
dedicar-se plenamente a criação de uma escola para que ela não precise mais existir!!!

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

com Rubem Alves

"Eu penso que a grande questão da educação, não é nem currículo, nem programa, nem lei de diretrizes e bases, porque as pessoas vão continuar fazendo as coisas do mesmo jeito. As pessoas não se transformam por causa de leis. O grande segredo da educação, é a cabeça dos professores. Nós teremos uma educação transformada quando os professores começarem a olhar para os alunos de uma maneira diferente. Ou seja, começar a sentir que os alunos são companheiros de uma grande aventura de viver. "
(Rubem Alves)

"Eu descobri em Portugal uma escola que me impressionou muitíssimo, chamada Escola da Ponte, escrevi até um livro sobre ela, "A Escola Com Que Sempre Sonhei Sem Imaginar Que Pudesse Existir. Os professores estão junto com os alunos pra ajudar os alunos. Essa ideia do professor ir lá dar uma aula, ficar na frente, os alunos copiando, isso não existe. Os professores são companheiros dos alunos, não tem nota, nota é uma inverdade porque aquilo que aluno produz numa prova, não revela o que ele pensa."
(Rubem Alves)

"Eu acho que a transformação da educação no Brasil, ela passa por dentro dos pensamentos e dos sentimentos dos professores. O professor é o ponto central de qualquer programa de transformação do ensino brasileiro."  
(Rubem Alves)

"Eu estou pensando há muito tempo em propor um novo tipo de professor. É um professor que não ensina nada, não é professor de matemática, de história, de geografia. É um professor de espantos. O objetivo da educação não é ensinar coisas, porque as coisas já estão na internet, estão por todos os lugares, estão nos livros. É ensinar a pensar. "
(Rubem Alves)

"Recebi uma carta de um menino: "Querido Rubem Alves, li o seu livro, "O Patinho Que Não Aprendeu A Voar". Aprendi que liberdade é a gente fazer aquilo que deseja muito e eu quero ser livre, ponto, parágrafo. Tenho uma professora que é demais, ela manda a gente ler os seus livros e grifar os encontros consonantais e os dígrafos." O que que o menino vai fazer com encontro consonantal, pra que serve isso? Pra nada. E dígrafo, pra que que serve? Pra nada. Era preciso que os professores parassem e dissessem: "Não vamos seguir o programa, vamos fazer as coisas que são essenciais no ambiente em que a criança vive. Então eu diria que os professores teriam que fazer sempre essa pergunta: "Isso que eu vou ensinar serve pra quê? " 
(Rubem Alves)
                                               

sábado, 27 de setembro de 2014

Uma bela metáfora com Rubem Alves

"Lá na escola da ponte, cada um segue do jeito que pode. Eu perguntei pro professor, José Pacheco, que era o diretor dessa escola, qual era o sistema, qual era a ideia. Ele disse, leia, "Alice no País das Maravilhas." Alice caiu lá no buraco do coelho e descobriu uma turminha e essa turminha, de bicho de todos os tipos, tinha uma pássaro chamado, Dodo. Então, o pássaro Dodo gritou: "Vamos fazer uma corrida! Todo mundo disse: "Vamos fazer uma corrida! Como é que vai ser essa corrida?""Vai ser assim, a gente vai fazer um círculo na terra e depois de feito o círculo, nós vamos correr dentro do círculo." Então, fizeram  o círculo na terra e aí o pássaro Dodo, disse: "Corram!" e todo mundo começava a correr. Um corria pra frente, um corria pra traz, outro ia dando pulinho, outro corria dando cambalhota. Cada um corria de um jeito. Aí o pássaro Dodo, disse: "Acabou a corrida! Parem de correr!" Todos pararam de correr, E alguém perguntou: "Quem ganhou a corrida?" O pássaro Dodo, respondeu: "Todos ganharam e todos receberão prêmios. Cada um correu do jeito que podia correr! "

(Um trecho da entrevista de Rubem Alves no Programa  Provocações em 2012)

domingo, 21 de setembro de 2014

No IV SECMASC

                 No IV SECMASC - Seminário de Mediação, Conciliação e Arbitragem em Florianópolis - SC, com Fernanda Levy

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Poema de Vinícius Alves


                         Poema de Vinícius Alves, do livro "ISSO", que será lançado, amanhã em Florianópolis, SC

terça-feira, 19 de agosto de 2014

O Construcionista

"Preferencialmente, o construcionista tende a favorecer formas de diálogo a partir das quais possam emergir novas realidades e novos valores. O desafio não é encontrar a "única e melhor forma", mas criar tipos de relação através dos quais se possa construir o futuro de maneira colaborativa."

(Construcionismo Social um convite ao diálogo - Kenneth J. Gergen e Mary Gergen )



sábado, 12 de julho de 2014

com Adélia Prado




google imagem

"A poesia, ela é uma sensação de estranhamento e de beleza diante de qualquer coisa que seja; objeto animais, pessoas, acontecimentos, sensações. Quando alguma coisa te provoca estranhamento e uma sensação de conforto e de beleza, você está experimentando a poesia. A gente está tendo uma experiência poética que é ao mesmo tempo religiosa. Por quê religisosa se os ateus escrevem poesia, se os agnósticos escrevem poesia, se os não crentes fazem poesia com o mesmo efeito, por que ela é religiosa ? Eu tenho uma convicção de que ela é religiosa, é uma experiência religiosa, porque quando você está diante desta emoção, tomado por um sentimento de beleza, de susto e de estranhamento, diante de alguma coisa, esse belo susto religa você a um centro que é significativo de sentido, de repente as coisas têm sentido, a vida tem sentido. Está diante de mim algo que me dá essa sensação, eu não posso provar isso, não é uma coisa que eu parto em laboratório e estudo essas partes. É uma experiência de inteireza. Você fica inteiro e feliz. E às vezes você chora, tal qual é a qualidade da beleza daquela experiência. Onde? Qual é essa coisa maravilhosa que você experimenta, que você fala, "Que maravilha!", pode ser uma pedra...um Drummonnd tem o célebre poema dele, né, "tinha uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma pedra" e ele continua, "jamais me esquecerei deste acontecimento no fundo das minha retinas tão fatigadas, tinha uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma pedra." O poema é só isso. E foi a única coisa que ele achou pra dizer do estranhamento diante de uma coisa , de um ser que eu chamo pedra. É como se ele tivesse visto a natureza , a qualidade íntima daquele objeto, daquele ser que nós chamamos pedra. então o olhar se abriu para o real de um objeto que eu falo pedra, podia ser água, podia se árvore, podia ser gente, que provoca uma emoção de, eu fico inteiro, religado no centro que me dá sentido e significação. "
(Adélia Prado no Sempre um Papo em 2014)    

quarta-feira, 2 de julho de 2014

com Alexandre Morais da Rosa

Entre famas e cronópios, mediação 
com Warat nos leva à literatura

(por Alexandre Morais da Rosa)



Alexandre e Warat


Ele influenciou toda uma geração de gente aturdida à procura de um mestre. Este lugar de oráculo, todavia, nunca foi por ele ocupado, embora muitos assim o quisessem. Ao não aceitar guiar, apontar o caminho, foi criticado, negado histericamente, ainda que mais tarde (quase) todos tenham se rendido à postura manifestamente ética de Luis Alberto Warat: apostar na capacidade de enunciação do sujeito. Teria sido mais fácil, especialmente para os que cultivam um “narcisismo pedante”, próprio da academia, ter fundado uma “seita jurídica” qualquer, na sua modalidade mais contemporânea, a saber, uma “seita jurídica da salvação”. Mas não. Sabia Warat que não há salvação concedida, completude prometida, pois isto é empulhação imaginária. E o lugar dos salvadores sempre é o do canalha. Restou, sempre, a aposta. A aposta no sujeito, na sua autenticidade, carnavalizando as certezas.
Foi uma convivência intransitiva. Depois de um longo luto, enfim, começo a conseguir falar e apresentar à nova geração sua obra. Uma dívida comigo mesmo. Luis Alberto Warat se foi para ficar. Com ele era impossível não fazer o impensável. Um camaleão de sentidos que apostava no sujeito e, nos últimos tempos, na mediação. Trabalhei com Warat e Juan Carlos Vezzula, nos anos 2000. Desde então acredito na mediação. Não em qualquer mediação, mas na mediação laica.
Talvez uma das chaves para entender a proposta de Warat sobre mediação possa estar na leitura cruzada, ou seja, como metáfora, da literatura, recurso utilizado por ele diversas vezes. Por isso a invocação de Cortazar e seu fantástico livro História de Cronópios e Famas, justamente para indicar duas posições diferentes, a saber, os famas como sujeitos matemáticos, estatísticos, ordenados, loucos por protocolos de atuação. Já os cronópios, por seu turno, gente que aceita o convite da vida, do inesperado e de bom grado a surpresa da faticidade, sem querer impor um padrão de vida. A opção entre famas e cronópios, no caso da mediação, dá a dimensão do que se passa. Embora o discurso seja de aceitar o outro e a violência que ele sempre traz consigo, muitas e muitas vezes o deslizar para “consertar” o sujeito, a relação estabelecida entre os envolvidos, faz com que os famas-mediadores neguem o fundamento da mediação, alienadamente. Assim, parece, com acerto, que somente uma postura de mediador-cronópio pode promover uma mediação sem salvação transcendente, já que vivem o mundo poeticamente.
É que não se pode fazer uma leitura linear do conflito, nem o entender como uma imagem. Ele é sempre a narrativa parcial de uma realidade sustentada por um sujeito que enuncia e que precisa de uma fusão de horizontes (Gadamer) num espaço compartilhado, desprovido, ademais, de verdade verdadeira/fundante. A realidade entendida como limite simbólico, portanto, da ordem do singular, impede que a leitura da realidade única possa se estabelecer, como de regra acontece no plano do Direito. Há um para-além do dito, no qual o sentido de uma possibilidade de interlocução e responsabilização, por básico, demandam um procedimento específico para produção de verdades, sem transcendência. Uma mediação laica, assim, parece ser o desafio neste início de milênio. Essa possibilidade não implica na renúncia aos mitos fundadores de qualquer sistema, mas justamente em reconhecer que a transcendência opera no real, ou seja, em algo que somente se pode tocar pelas bordas, enfim, no qual a palavra irá fundar, por definição, mas que não se pode querer salvar ninguém.
Mais cedo ou mais tarde se percebe que o conflito e sua manutenção ocupam o lugar de um remédio imaginário contra o desalento constitutivo do sujeito, no medo que o desamparo de uma solidão aumente pelo rompimento do vínculo que um processo judicial proporciona, situação mais do que apurada no campo do Direito de Família, em que as separações, divórcios, etc. nunca terminam, justamente porque os sujeitos não podem dar cabo ao que lhes sustenta.... e a resposta estatal padrão, fundamentada na razão, é manca. Sempre. Há um para além do autos, no silêncio, no semi-dito, que condiciona o sentido do que virá depois...
No campo da mediação se constrói um conto com os materiais significantes disponíveis, sem que já se antecipe o final. Difere de uma decisão judicial que acredita ingenuamente dar a razão para alguma das partes (José Bolzan de Morais e Fabiana Spengler). Rompe-se com o padrão moderno de racionalidade, enfim, muda-se de rumo, como apontam João Salm e Rafael Mendonça. Aceita-se a parcialidade de um acontecer. Não há um projeto do que pode ser adequado para os envolvidos. Na singularidade que surgirão, por certo, a procela de significantes que serão dispostos, em algo próximo a uma “bricolage”, em que a garantia decorre da montagem conjunta dos concernidos.
Com efeito, o que se dá, de regra, são atores sociais que amam o Direito, a mediação, mas odeiam gente, contato, proximidade, como fala Luis Alberto Warat (O Ofício do Mediador). Amam as pessoas à distância, nos seus lugares, desde que os deixem em paz. A paz muitas vezes do discurso consciente contracena com o desprezo, a intolerância em relação ao outro. O encontro é similar a lógica do “amor cortês”, no sentido de evitar o encontro com a “coisa”, enfim, como no “amor cortês” é um falso amor, aqui, no caso da mediação por protocolos, é um falso respeito. Por detrás do discurso esconde-se, não raro, uma intolerância primordial. Evitar-se o encontro ao máximo, com medo do trauma que daí advém, sempre. E quando acontece o encontro, por exemplo, com a violência, o conflito, a intolerância impera soberana. Por isso que Lacan (Ética da Psicanálise), ao afirmar que o real existe, mas é impossível, refere-se ao axioma: “ama o teu próximo”, porque ele para ser amado deve permanecer a certa distância, sem encontro, porque quando isto se dá, o trauma acontece. É sobre este trauma que muitas vezes a Mediação é chamada a se manifestar. A sociedade vive numa convivência à distância, um contato sem contato, e os contatos são traumáticos por definição.
Daí o perigo dos discursos de “Paz por Paz”, alienados da dimensão humana, na esperança metafísica — e muitas vezes religiosa — de uma perenidade de humanos tornados em anjos, imaginariamente. Esse é um projeto inalcançável e que fomenta — muito de boa-fé — as atividades sociais totalitárias. Procura-se, neste pensar, uma dessubjetivação, com o apagamento da dimensão de negatividade do sujeito, de sua pulsão de morte (Freud). E os Famas de sempre procuram impor um padrão de subserviência alienada ao desejo, tornando os mediados em marionetes de um discurso opressivo e sem sentido. Procura-se, enfim, eliminar o sujeito humano que molesta.
Aceitar o sujeito é admitir que age sem o saber, movido por uma estrutura subjetiva singular, própria, embalada pelo princípio de morte, na eterna tentação de existir. Pode ser que ali, no conflito, uma tentativa de o sujeito se fazer ver, aparecer. A abordagem tradicional busca calar esta voz, não deixar o sujeito dizer de si, de suas motivações, previamente etiquetadas e formatadas. Há um sujeito no conflito. E a mediação possibilita que ele se faça ver, dando-lhe a palavra, sempre. É com a palavra, com a voz, que o sujeito pode aparecer. A violência em nome da lei, imposta, simplesmente, realimenta uma estrutura de irresignação que (re)volta, mais e mais.
Na mediação se pretende mostrar que não se pode gozar tudo, pois há um impossível a se gozar em sociedade. Busca-se, ao inverso do discurso padrão, construir laço social, e não a imposição de um respeito incondicionalkantiano que, por básico, opera na lógica: não discuta, cumpra. Buscar que o sujeito enuncie seu discurso e não despeje enunciados, como diz Lebrun, ocupando um lugar e uma função. A aposta que se faz, neste contexto, pois, é a de que reconhecer o outro, a alteridade, na medida em que se descobre sujeito. Dito de outra forma, aceitar o outro sob a forma de uma relação conflituosa, para somente assim ocorre laço social. Do contrário, há intolerância. Sempre. Zizek (Arriesgar lo imposible: Conversaciones com Glyn Daly) afirma que é preciso de alguma maneira aceitar a violência, porque a tolerância à distância, própria do modelo liberal, é muito mais cínica. Enfim, arriscar o impossível: aceitar e se relacionar com o outro singular, no que a mediação, via cronópios, pode ser um sendero.
No caso de Warat, eu tinha para com ele o que Cortazar chamava de “amizade felina”, no sentido de que ele sabia quem eu era e eu sabia quem era Warat. Não há mais o que falar. Fomos amigos e tchau, cada um para o seu lado. Como hoje e a cada dia que a falta se instaura. De qualquer forma, com a sedução que ele opera, vale a descrição de Pedro Juan Gutiérrez, o qual, por certo, descreve Warat:
“Sou um sedutor. Eu sei. Assim como existem os alcoólicos irrecuperáveis, os jogadores, os viciados em cafeína, em nicotina, em maconha, os cleptomaníacos etcétera, sou um viciado em sedução. Às vezes o anjinho que tenho dentro de mim tenta me controlar e diz assim: ‘Não seja tão filho-da-p..., Luisito... Não percebe que está fazendo estas mulheres sofrerem?’. Mas aí aparece o diabinho e o contradiz: ‘Vá em frente. Elas ficam felizes assim, nem que seja só por um tempo. E você também fica feliz. Não se sinta culpado. É um vício. Sei que a sedução é um vício igual a outro qualquer. E não existe nenhum Sedutores Anônimos. Se existisse, talvez pudessem fazer algo por mim. Se bem que não tenho tanta certeza. Seguramente eu inventaria pretextos para não comparecer a suas sessões e ter de ficar lá na caradura na frente de todo o mundo, botar a mão na Bíblia e dizer serenamente: ‘Meu nome é Luis Alberto Warat. Sou um sedutor. E faz hoje vinte e sete dias que não seduzo ninguém.”
Que a Mediação seduza, famas e cronópios, mas que se adote uma postura poética do mundo, sempre. O mundo ficou menos poético sem Warat.
Alexandre Morais da Rosa é é juiz em Santa Catarina, doutor em Direito pela UFPR e professor de Processo Penal na UFSC.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Mediação por Luis Alberto Warat

"A mediação,  em uma primeira aproximação, não seria outra coisa do que a realização com o outro do próprios sentimentos. Fazer mediação nada mais é que viver, viver em harmonia com a própria interioridade e com os outros, viver em harmonia com a própria reserva selvagem." 

(O Ofício do Mediador - Luis Alberto Warat - pg. 33)

terça-feira, 20 de maio de 2014

"Fala que eu te escuto", reportagem Revista Carta Capital

Uma jovem oferece um dedo de prosa a quem passa pela Avenida Paulista. Por Fábio Fujita



No quarteirão da Avenida Paulista entre as ruas Augusta e Frei Caneca, coração da cidade de São Paulo, uma infinidade de artistas amadores tenta, cada um à sua maneira, chamar a atenção. Há os hippies que vendem colares de miçangas, os covers de Michael Jackson e Elvis Presley, bailarinas, mensagens nas paredes do terrorismo poético, estátuas vivas, caricaturistas, seresteiros, guitarristas. Desde janeiro, talvez ninguém desperte, porém, mais curiosidade do que uma moça de 22 anos. Menos pelas ruivíssimas madeixas de pontas rosa-choque, mais por sua “performance”. Sentada no centro da calçada em frente ao famoso Conjunto Nacional, Mariana Schettino expõe uma cadeira de praia e um colorido cartaz-convite escrito com uma simpática caligrafia: “Vamos conversar? Sente-se comigo!”
Um convite para conversar? A suposta banalidade da proposta costuma deixar os pedestres atônitos. Há quem fique prostrado diante da jovem, lendo e relendo o cartaz, como se a existência de alguém que nada quer além de um dedo de prosa não pudesse ser algo real. Com frequência, os cidadãos sacam seus celulares para registrar o improvável convite.
Paulista

segunda-feira, 12 de maio de 2014

A escuta perfeita para a mediação !


Eliane Brum fala sobre a escuta como repórter.

"Quando me refiro a escutar, não me refiro a algo simples. Escutar qualquer um escuta. Mas escutar, de fato, é uma escolha profunda. Uma escolha de vida, mesmo. Essa escuta a que me refiro, mesmo surdos, no sentido da não audição, são capazes de fazer. Pessoalmente, não acredito que seja possível fazer uma reportagem sem fazer a escolha da escuta. Escutar é empreender o movimento arriscado de se esvaziar de si, de suas visões de mundo, de seus preconceitos, de seus julgamentos, para ir o mais vazio possível em direção ao mundo do outro, ao mundo que é o outro. E depois fazer esse caminho de volta preenchido por uma outra experiência de estar no mundo. Escutar é se desabitar por um momento para ser habitado pelo outro. É isso que eu chamo de escuta e acho que essa escuta é o principal instrumento de trabalho do repórter. Nosso primeiro ato, na reportagem, é interno. Antes de encarar as ruas concretas do mundo de fora, onde vivem as pessoas e as histórias, cada uma delas um mundo singular, precisamos fazer esse gesto de atravessar a rua de nós mesmos. Se a reportagem não começa assim, acho que não a alcançamos. Podemos geograficamente atravessar o mundo, viajar até o Sudão do Sul, por exemplo, mas voltaremos de lá contando sobre o que já sabíamos, contando sobre teses prévias, contando sobre nossa ideia prévia sobre aquele país, sobre nós mesmos. Vamos até bem longe sem sair do lugar. Porque não fizemos o movimento essencial da escuta, que exige muito, mas muito mesmo, de nós."
Eliane Brum

quarta-feira, 16 de abril de 2014

O ovo e a galinha por Clarice Lispector


google imagem


De manhã na cozinha sobre a mesa vejo o ovo.
Olho o ovo com um só olhar. Imediatamente percebo que não se pode estar vendo um ovo. Ver o ovo nunca se mantêm no presente: mal vejo um ovo e já se torna ter visto o ovo há três milênios. – No próprio instante de se ver o ovo ele é a lembrança de um ovo. – Só vê o ovo quem já o tiver visto. – Ao ver o ovo é tarde demais: ovo visto, ovo perdido. – Ver o ovo é a promessa de um dia chegar a ver o ovo. – Olhar curto e indivisível; se é que há pensamento; não há; há o ovo. – Olhar é o necessário instrumento que, depois de usado, jogarei fora. Ficarei com o ovo. – O ovo não tem um si-mesmo. Individualmente ele não existe.
Ver o ovo é impossível: o ovo é supervisível como há sons supersônicos. Ninguém é capaz de ver o ovo. O cão vê o ovo? Só as máquinas vêem o ovo. O guindaste vê o ovo. – Quando eu era antiga um ovo pousou no meu ombro. – O amor pelo ovo também não se sente. O amor pelo ovo é supersensível. A gente não sabe que ama o ovo. – Quando eu era antiga fui depositária do ovo e caminhei de leve para não entornar o silêncio do ovo. Quando morri, tiraram de mim o ovo com cuidado. Ainda estava vivo. – Só quem visse o mundo veria o ovo. Como o mundo o ovo é óbvio.
O ovo não existe mais. Como a luz de uma estrela já morta, o ovo propriamente dito não existe mais. – Você é perfeito, ovo. Você é branco. – A você dedico o começo. A você dedico a primeira vez.
Ao ovo dedico a nação chinesa.
O ovo é uma coisa suspensa. Nunca pousou. Quando pousa, não foi ele quem pousou. Foi uma coisa que ficou embaixo do ovo. – Olho o ovo na cozinha com atenção superficial para não quebrá-lo. Tomo o maior cuidado de não entendê-lo. Sendo impossível entendê-lo, sei que se eu o entender é porque estou errando. Entender é a prova do erro. Entendê-lo não é o modo de vê-lo. – Jamais pensar no ovo é um modo de tê-lo visto. – Será que sei do ovo? É quase certo que sei. Assim: existo, logo sei. – O que eu não sei do ovo é o que realmente importa. O que eu não sei do ovo me dá o ovo propriamente dito. – A Lua é habitada por ovos.
O ovo é uma exteriorização. Ter uma casca é dar-se.- O ovo desnuda a cozinha. Faz da mesa um plano inclinado. O ovo expõe. – Quem se aprofunda num ovo, quem vê mais do que a superfície do ovo, está querendo outra coisa: está com fome.
O ovo é a alma da galinha. A galinha desajeitada. O ovo certo. A galinha assustada. O ovo certo. Como um projétil parado. Pois ovo é ovo no espaço. Ovo sobre azul. – Eu te amo, ovo. Eu te amo como uma coisa nem sequer sabe que ama outra coisa. – Não toco nele. A aura de meus dedos é que vê o ovo. Não toco nele – Mas dedicar-me à visão do ovo seria morrer para a vida mundana, e eu preciso da gema e da clara. – O ovo me vê. O ovo me idealiza? O ovo me medita? Não, o ovo apenas me vê. É isento da compreensão que fere. – O ovo nunca lutou. Ele é um dom. – O ovo é invisível a olho nu. De ovo a ovo chega-se a Deus, que é invisível a olho nu. – O ovo terá sido talvez um triângulo que tanto rolou no espaço que foi se ovalando. – O ovo é basicamente um jarro? Terá sido o primeiro jarro moldado pelos etruscos ? Não. O ovo é originário da Macedônia. Lá foi calculado, fruto da mais penosa espontaneidade. Nas areias da Macedônia um homem com uma vara na mão desenhou-o. E depois apagou-o com o pé nu.
O ovo é coisa que precisa tomar cuidado. Por isso a galinha é o disfarce do ovo. Para que o ovo atravesse os tempos a galinha existe. Mãe é para isso. – O ovo vive foragido por estar sempre adiantado demais para a sua época. – O ovo por enquanto será sempre revolucionário. – Ele vive dentro da galinha para que não o chamem de branco. O ovo é branco mesmo. Mas não pode ser chamado de branco. Não porque isso faça mal a ele, mas as pessoas que chamam ovo de branco, essas pessoas morrem para a vida. Chamar de branco aquilo que é branco pode destruir a humanidade. Uma vez um homem foi acusado de ser o que ele era, e foi chamado de Aquele Homem. Não tinham mentido: Ele era. Mas até hoje ainda não nos recuperamos, uns após outros. A lei geral para continuarmos vivos: pode-se dizer “um rosto bonito”, mas quem disser “O rosto”, morre; por ter esgotado o assunto.
Com o tempo, o ovo se tornou um ovo de galinha. Não o é. Mas, adotado, usa-lhe o sobrenome. – Deve-se dizer “o ovo da galinha”. Se eu disser apenas “o ovo”, esgota-se o assunto, e o mundo fica nu. – Em relação ao ovo, o perigo é que se descubra o que se poderia chamar de beleza, isto é, sua veracidade. A veracidade do ovo não é verossímil. Se descobrirem, podem querer obrigá-lo a se tornar retangular. O perigo não é para o ovo, ele não se tornaria retangular. (Nossa garantia é que ele não pode: não poder é a grande força do ovo: sua grandiosidade vem da grandeza de não poder, que se irradia como um não querer.) Mas quem lutasse por torná-lo retangular estaria perdendo a própria vida. O ovo nos expõe, portanto, em perigo. Nossa vantagem é que o ovo é invisível. E quanto aos iniciados, os iniciados disfarçam o ovo.
Quanto ao corpo da galinha, o corpo da galinha é a maior prova de que o ovo não existe. Basta olhar para a galinha para se tornar óbvio que o ovo é impossível de existir.
E a galinha? O ovo é o grande sacrifício da galinha. O ovo é a cruz que a galinha carrega na vida. O ovo é o sonho inatingível da galinha. A galinha ama o ovo. Ela não sabe que existe o ovo. Se soubesse que tem em si mesma o ovo, perderia o estado de galinha. Ser galinha é a sobrevivência da galinha. Sobreviver é a salvação. Pois parece que viver não existe. Viver leva a morte. Então o que a galinha faz é estar permanentemente sobrevivendo. Sobreviver chama-se manter luta contra a vida que é mortal. Ser galinha é isso. A galinha tem o ar constrangido.
É necessário que a galinha não saiba que tem um ovo. Senão ela se salvaria como galinha, o que também não é garantido, mas perderia o ovo. Então ela não sabe. Para que o ovo use a galinha é que a galinha existe. Ela era só para se cumprir, mas gostou. O desarvoramento da galinha vem disso: gostar não fazia parte de nascer. Gostar de estar vivo dói. – Quanto a quem veio antes, foi o ovo que achou a galinha. A galinha não foi sequer chamada. A galinha é diretamente uma escolhida. – A galinha vive como em sonho. Não tem senso de realidade. Todo o susto da galinha é porque estão sempre interrompendo o seu devaneio. A galinha é um grande sono. – A galinha sofre de um mal desconhecido. O mal desconhecido é o ovo. – Ela não sabe se explicar: “ sei que o erro está em mim mesma”, ela chama de erro a vida, “não sei mais o que sinto”, etc.
“Etc., etc., etc.,” é o que cacareja o dia inteiro a galinha. A galinha tem muita vida interior. Para falar a verdade a galinha só tem mesmo é vida interior. A nossa visão de sua vida interior é o que chamamos de “galinha”. A vida interior na galinha consiste em agir como se entendesse. Qualquer ameaça e ela grita em escândalo feito uma doida. Tudo isso para que o ovo não se quebre dentro dela. Ovo que se quebra dentro de galinha é como sangue.
A galinha olha o horizonte. Como se da linha do horizonte é que viesse vindo um ovo. Fora de ser um meio de transporte para o ovo, a galinha é tonta, desocupada e míope. Como poderia a galinha se entender se ela é a contradição de um ovo? O ovo ainda é o mesmo que se originou na Macedônia. A galinha é sempre tragédia mais moderna. Está sempre inutilmente a par. E continua sendo redesenhada. Ainda não se achou a forma mais adequada para uma galinha. Enquanto meu vizinho atende ao telefone ele redesenha com lápis distraído a galinha. Mas para a galinha não há jeito: está na sua condição não servir a si própria. Sendo, porém, o seu destino mais importante que ela, e sendo o seu destino o ovo, a sua vida pessoal não nos interessa.
Dentro de si a galinha não reconhece o ovo, mas fora de si também não o reconhece. Quando a galinha vê o ovo pensa que está lidando com uma coisa impossível. É com o coração batendo, com o coração batendo tanto, ela não o reconhece.

continue lendo em: http://claricelispector.blogspot.com.br/2007/11/o-ovo-e-galinha.html