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"A poesia, ela é uma sensação de estranhamento e de beleza diante de qualquer coisa que seja; objeto animais, pessoas, acontecimentos, sensações. Quando alguma coisa te provoca estranhamento e uma sensação de conforto e de beleza, você está experimentando a poesia. A gente está tendo uma experiência poética que é ao mesmo tempo religiosa. Por quê religisosa se os ateus escrevem poesia, se os agnósticos escrevem poesia, se os não crentes fazem poesia com o mesmo efeito, por que ela é religiosa ? Eu tenho uma convicção de que ela é religiosa, é uma experiência religiosa, porque quando você está diante desta emoção, tomado por um sentimento de beleza, de susto e de estranhamento, diante de alguma coisa, esse belo susto religa você a um centro que é significativo de sentido, de repente as coisas têm sentido, a vida tem sentido. Está diante de mim algo que me dá essa sensação, eu não posso provar isso, não é uma coisa que eu parto em laboratório e estudo essas partes. É uma experiência de inteireza. Você fica inteiro e feliz. E às vezes você chora, tal qual é a qualidade da beleza daquela experiência. Onde? Qual é essa coisa maravilhosa que você experimenta, que você fala, "Que maravilha!", pode ser uma pedra...um Drummonnd tem o célebre poema dele, né, "tinha uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma pedra" e ele continua, "jamais me esquecerei deste acontecimento no fundo das minha retinas tão fatigadas, tinha uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma pedra." O poema é só isso. E foi a única coisa que ele achou pra dizer do estranhamento diante de uma coisa , de um ser que eu chamo pedra. É como se ele tivesse visto a natureza , a qualidade íntima daquele objeto, daquele ser que nós chamamos pedra. então o olhar se abriu para o real de um objeto que eu falo pedra, podia ser água, podia se árvore, podia ser gente, que provoca uma emoção de, eu fico inteiro, religado no centro que me dá sentido e significação. "
(Adélia Prado no Sempre um Papo em 2014)
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