segunda-feira, 29 de junho de 2015

TIÃO ROCHA FALA SOBRE EDUCAÇÃO !



"Como é que a gente constrói algo novo? Por caminhos novos. Não dá pra fazer os velhos caminhos. E aí você que analisa toda a energia. Mas isso muda o olhar. Essa mudança de olhar é mudança de paradigma. Nós fomos treinados a olhar a comunidade pelo lado vazio do copo e medir o que chama IDH . A muitos anos que eu não meço o IDH. Eu não olho pelo lado de carência, carente somos todos nós . Eu olho pelo lado de IPDH, Indice de Potencial de Desenvolvimento Humano que está lá. E dá pra medir, que é a capacidade de acolhimento, capacidade de convivência, capacidade de aprendizagem e a capacidade de oportunidade. Quando você chega numa comunidade e olha pelo lado cheio do copo é isso que garante àquela comunidade um momento de transformação."
 (Tião Rocha, educador) 

José Pacheco fala numa mudança de mentalidade na educação!

terça-feira, 16 de junho de 2015

ENTRE A IMORTALIDADE E A REPRODUÇÃO - CAOS E HARMONIA - um lindo texto de Ana Thomaz

a noite passada vivi uma experiência transmutadora...depois de ajudar as meninas a dormirem, fui para meu quarto e comecei a sentir calafrios, rapidamente coloquei um pijama quente e me enrolei em cobertas, os calafrios foram se transformando em um frio profundo nos ossos, tremia tanto que temia ter uma convulsão, o frio estava insuportável e o mal-estar aumentava, o marido em são paulo incomunicável em um set de filmagem, decidi ficar lúcida, mantive a calma com a respiração profunda e tranquila, e a tremedeira piorava, as dores nos ossos, enjoo, o corpo todo contraído, frio que eu nunca havia sentido antes, precisava de ajuda e logo pensei em uma cena do filme lucy*, alcancei o laptop e coloquei o filme, primeira frase do filme 
"a vida nos foi dada a um bilhão de anos, o que fizemos com ela?"

terça-feira, 2 de junho de 2015

Claudio Naranjo: “A educação atual produz zumbis”

Uma excelente entrevista com Claudio Naranjo:

Claudio Naranjo, psiquiatra chileno, fala sobre a educação atual  (Foto: Divulgação)

ÉPOCA – Quais os problemas do modelo educacional atual na opinião do senhor?
Naranjo – 
Temos um sistema que instrui e usa de forma fraudulenta a palavra educação para designar o que é apenas a transmissão de informações. É um programa que rouba a infância e a juventude das pessoas, ocupando-as com um conteúdo pesado, transmitido de maneira catedrática e inadequada. O aluno passa horas ouvindo, inerte, como funciona o intestino de um animal, como é a flora num local distante e os nomes dos afluentes de um grande rio. É uma aberração ocupar todo o tempo da criança com informações tão distantes dela, enquanto há tanto conteúdo dentro dela que pode ser usado para que ela se desenvolva. Como esse monte de informações pode ser mais importante que o autoconhecimento de cada um? O nome educação é usado para designar algo que se aproxima de uma lavagem cerebral. É um sistema que quer um rebanho para robotizar. A criança é preparada, por anos, para funcionar num sistema alienante, e não para desenvolver suas potencialidades intelectuais, amorosas, naturais e espontâneas.
ÉPOCA – Como é  possível mudar esse modelo?
Naranjo –
 Podemos conceber uma educação para a consciência, para o desenvolvimento da mente. Na fundação, criamos um método para a formação de educadores baseado em mais de 40 anos de pesquisas. O objetivo é preparar os professores para que eles se aproximem dos alunos de forma mais afetiva e amorosa, para que sejam capazes de conduzir as crianças ao desenvolvimento do autoconhecimento, respeitando suas características pessoais. Comprovamos por meio de pesquisas que esse é o caminho para formar pessoas mais benévolas, solidárias e compassivas. Hoje a educação é despótica e repressiva. É como se educar fosse dizer faça isso e faça aquilo. O treinamento que criamos está entre os programas reconhecidos pelo Fórum Mundial da Educação, do qual faço parte. Já estive com ministros da Educação de dezenas de países para divulgar a importância dessa abordagem.
ÉPOCA – E qual foi a recepção? 
Naranjo –
 A palavra amor não tem muita aceitação no mundo da educação. Na poesia, talvez. Na religião, talvez. Mas não na educação. O tema inteligência emocional é um pouco mais disseminado. É usado para que os jovens tomem consciência de suas emoções. É bom que exista para começar, mas não tem um impacto transformador. A inteligência emocional é aceita porque tem o nome inteligência no meio. Tudo o que é intelectual interessa. Não se dá importância ao emocional. Esse aspecto é tratado com preconceito. É um absurdo, porque, quando implementamos  uma didática afetuosa, o aluno aprende mais facilmente qualquer conteúdo. Os ministros da Educação me recebem muito bem. Eles concordam com meu ponto de vista, mas na prática não fazem nada. Pode ser que isso ocorra por causa da própria inércia do sistema. O ministro é como um visitante que passa pelos ministérios e consegue apenas resolver o que é urgente. Ele mesmo não estabelece prioridades. Estou mais esperançoso com o novo ministro da Educação de vocês (Renato Janine Ribeiro). Ele me convidou para jantar, para falarmos sobre minhas ideias. É a primeira vez que a iniciativa parte do lado do governo. Ele é um filósofo, pode fazer alguma diferença.
"Quando há amor na forma de ensinar, o aluno aprende mais facilmente qualquer conteúdo"
 
ÉPOCA – Para quem decidiu ser professor, não seria natural sentir amor, compaixão e vontade de cuidar do aluno?
Naranjo –
 Uma vez dei uma aula a um grupo de estudantes de pedagogia na Universidade de Brasília. Fiquei muito decepcionado com a falta de interesse. Vendo minha expressão, o coordenador me disse: “Compreenda que eles não escolheram ser educadores. Alguns prefeririam ser motorista de táxi, mas decidiram educar porque ganham um pouco mais e têm um pouco mais de segurança. Estão aqui porque não tiveram condições de se preparar para ser advogados ou engenheiros ou outra profissão que almejassem”. Isso acontece muito em locais em que a educação não é realmente valorizada. Quem chega à escola de educação são os que têm menos talento e menos competência. Não se pode esperar que tenham a vocação pedagógica, de transmitir valores, cuidar e acolher.
>> Brasil fica em 60° lugar em ranking mundial de educação em lista com 76 países

ÉPOCA – O senhor diz que o sistema de educação atual desperdiça talentos, rotulando-os com transtornos e distúrbios. Pode explicar melhor esse ponto?
Naranjo – 
Humberto Maturana, cientista chileno, me contou que a membrana celular não deixa entrar aquilo que ela não precisa. A célula tem um modelo em seus genes e sabe o que necessita para construir-se. Um eletrólito que não lhe servirá não será absorvido. Podemos usar essa metáfora para a educação. As perturbações da educação são uma resposta sã a uma educação insana. As crianças são tachadas como doentes com distúrbios de atenção e de aprendizado, mas em muitos casos trata-se de uma negação sã da mente da criança de não querer aprender o irrelevante. Nossos estudantes não querem que lhe metam coisas na cabeça. O papel do educador é levá-lo a descobrir, refletir, debater e constatar. Para isso, é essencial estimular o autoconhecimento, respeitando as características de cada um. Tudo é mais efetivo quando a criança entende o que faz mais sentido para ela.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

José Pacheco: “A crise é, também, da educação!”


E: Foi o idealizador do projeto educativo da Escola da Ponte, na Vila das Aves, que se mantem desde 1976 em funcionamento. Como é que tudo começou?
JP: 
A resposta tem um pouco de história autobiográfica, e eu peço desculpa de falar em termos pessoais, porque o projeto da Ponte é coletivo, de uma equipa, e não meu. Quando vamos para a educação, vamos por uma de duas razões: por amor ou por vingança. Eu confesso que fui por vingança. Jurei a mim mesmo que nenhum aluno meu passaria pelas situações de humilhação e exclusão por que eu passei. Para mim seria inadmissível que um aluno não aprendesse. Estávamos no tempo da ditadura e eu dava aulas muito bem dadas. Era o que me diziam... Ainda assim, no fim de cada ano havia sempre uma parcela de alunos que não aprendia, que reprovava. Eu questionava-me: Se eu dou aulas tão bem dadas, por que razão eles não aprendem? Não me conseguia vingar!... [risos] Comecei a pensar que havia qualquer coisa de errado. 

Quando cheguei à Ponte, aceitei lecionar uma turma a que chamavam "turma do lixo", uma turma composta de jovens de 14 e 15 anos que não sabiam ler nem escrever, que batiam nos professores. Perguntei àqueles jovens: Porque não sabeis ler? E eles responderam: "Porque as professoras todos os anos nos falam do a, e, i, o, u, do pa, pe pi, pó, pu, do saltinho do pardal, da ondinha do mar. E, depois de darmos a primeira e a segunda página do livro, não entendemos mais nada." Olhei para eles e pensei: Mas é assim que eu ensino, se continuar a ensinar assim eles vão continuar a não aprender. 

"Compreendi que não havia dificuldades de aprendizagem neles, mas de "ensinagem" em mim. Eles não aprendiam porque a escola não lhes contemplava a diversidade."

E: Pôs em causa a forma como lecionava?
JP: 
Nesse momento senti a primeira iluminação. Compreendi que não havia dificuldades de aprendizagem neles, mas de "ensinagem" em mim. Eles não aprendiam porque a escola não lhes contemplava a diversidade. Cada um era um ser único, dotado de um ritmo e modo de pensar próprios. Se fosse hoje, falar-se-ia de estilos de inteligência. Mas nós ensinávamos a todos da mesma maneira, no mesmo lugar e no mesmo horário. Interroguei-me, novamente: Será que tem de ser assim? Porque há aula? Porque dou aula? Quando percebi que dar aula é inútil e prejudicial, o chão fugiu-me debaixo dos pés - eu só sabia dar aula. O que iria fazer da minha vida? Mudar de profissão? 

Senti vontade de voltar para a engenharia. Entretanto, conheci professores tão desorientados quanto eu e duas professoras da Escola da Ponte, e tudo mudou. Elas sentiam o mesmo desconforto que eu sentia. Quando lhes falei sobre isso, com elas iniciei um caminho de reflexão-ação, que continua... buscamos compreender porque dávamos aulas, por que razão uma aula durava 50 minutos, porque aplicávamos testes, porque organizávamos as escolas em classes ou anos de escolaridade... Lendo teoria e modificando a nossa práxis, concluímos que nada disso tinha fundamento científico. Que teríamos de procurar alternativas para esses arcaísmos pedagógicos 

Assista a entrevista de José Pacheco na íntegra aqui:http://www.educare.pt/noticias/noticia/ver/?id=14504&langid=1