segunda-feira, 1 de junho de 2015

José Pacheco: “A crise é, também, da educação!”


E: Foi o idealizador do projeto educativo da Escola da Ponte, na Vila das Aves, que se mantem desde 1976 em funcionamento. Como é que tudo começou?
JP: 
A resposta tem um pouco de história autobiográfica, e eu peço desculpa de falar em termos pessoais, porque o projeto da Ponte é coletivo, de uma equipa, e não meu. Quando vamos para a educação, vamos por uma de duas razões: por amor ou por vingança. Eu confesso que fui por vingança. Jurei a mim mesmo que nenhum aluno meu passaria pelas situações de humilhação e exclusão por que eu passei. Para mim seria inadmissível que um aluno não aprendesse. Estávamos no tempo da ditadura e eu dava aulas muito bem dadas. Era o que me diziam... Ainda assim, no fim de cada ano havia sempre uma parcela de alunos que não aprendia, que reprovava. Eu questionava-me: Se eu dou aulas tão bem dadas, por que razão eles não aprendem? Não me conseguia vingar!... [risos] Comecei a pensar que havia qualquer coisa de errado. 

Quando cheguei à Ponte, aceitei lecionar uma turma a que chamavam "turma do lixo", uma turma composta de jovens de 14 e 15 anos que não sabiam ler nem escrever, que batiam nos professores. Perguntei àqueles jovens: Porque não sabeis ler? E eles responderam: "Porque as professoras todos os anos nos falam do a, e, i, o, u, do pa, pe pi, pó, pu, do saltinho do pardal, da ondinha do mar. E, depois de darmos a primeira e a segunda página do livro, não entendemos mais nada." Olhei para eles e pensei: Mas é assim que eu ensino, se continuar a ensinar assim eles vão continuar a não aprender. 

"Compreendi que não havia dificuldades de aprendizagem neles, mas de "ensinagem" em mim. Eles não aprendiam porque a escola não lhes contemplava a diversidade."

E: Pôs em causa a forma como lecionava?
JP: 
Nesse momento senti a primeira iluminação. Compreendi que não havia dificuldades de aprendizagem neles, mas de "ensinagem" em mim. Eles não aprendiam porque a escola não lhes contemplava a diversidade. Cada um era um ser único, dotado de um ritmo e modo de pensar próprios. Se fosse hoje, falar-se-ia de estilos de inteligência. Mas nós ensinávamos a todos da mesma maneira, no mesmo lugar e no mesmo horário. Interroguei-me, novamente: Será que tem de ser assim? Porque há aula? Porque dou aula? Quando percebi que dar aula é inútil e prejudicial, o chão fugiu-me debaixo dos pés - eu só sabia dar aula. O que iria fazer da minha vida? Mudar de profissão? 

Senti vontade de voltar para a engenharia. Entretanto, conheci professores tão desorientados quanto eu e duas professoras da Escola da Ponte, e tudo mudou. Elas sentiam o mesmo desconforto que eu sentia. Quando lhes falei sobre isso, com elas iniciei um caminho de reflexão-ação, que continua... buscamos compreender porque dávamos aulas, por que razão uma aula durava 50 minutos, porque aplicávamos testes, porque organizávamos as escolas em classes ou anos de escolaridade... Lendo teoria e modificando a nossa práxis, concluímos que nada disso tinha fundamento científico. Que teríamos de procurar alternativas para esses arcaísmos pedagógicos 

Assista a entrevista de José Pacheco na íntegra aqui:http://www.educare.pt/noticias/noticia/ver/?id=14504&langid=1

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