Eliane Brum fala sobre a escuta como repórter.
"Quando me refiro a escutar, não me refiro a algo simples. Escutar qualquer um escuta. Mas escutar, de fato, é uma escolha profunda. Uma escolha de vida, mesmo. Essa escuta a que me refiro, mesmo surdos, no sentido da não audição, são capazes de fazer. Pessoalmente, não acredito que seja possível fazer uma reportagem sem fazer a escolha da escuta. Escutar é empreender o movimento arriscado de se esvaziar de si, de suas visões de mundo, de seus preconceitos, de seus julgamentos, para ir o mais vazio possível em direção ao mundo do outro, ao mundo que é o outro. E depois fazer esse caminho de volta preenchido por uma outra experiência de estar no mundo. Escutar é se desabitar por um momento para ser habitado pelo outro. É isso que eu chamo de escuta e acho que essa escuta é o principal instrumento de trabalho do repórter. Nosso primeiro ato, na reportagem, é interno. Antes de encarar as ruas concretas do mundo de fora, onde vivem as pessoas e as histórias, cada uma delas um mundo singular, precisamos fazer esse gesto de atravessar a rua de nós mesmos. Se a reportagem não começa assim, acho que não a alcançamos. Podemos geograficamente atravessar o mundo, viajar até o Sudão do Sul, por exemplo, mas voltaremos de lá contando sobre o que já sabíamos, contando sobre teses prévias, contando sobre nossa ideia prévia sobre aquele país, sobre nós mesmos. Vamos até bem longe sem sair do lugar. Porque não fizemos o movimento essencial da escuta, que exige muito, mas muito mesmo, de nós."
Eliane Brum
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