Na sala espero sentada na cadeira em frente ele sentaddo também espera dois esperançosos que esperam sentados na sala de espera março/2018 Virgínia Alves
terça-feira, 20 de fevereiro de 2018
A mesa na porta A porta no quarto O quarto na sala A sala na rua A rua na casa A casa nua Virgínia Alves
O fotógrafo Difícil fotografar o silêncio. Entretanto tentei. Eu conto: Madrugada a minha aldeia estava morta. Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas. Eu estava saindo de uma festa. Eram quase quatro da manhã. Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado. Preparei minha máquina. O silêncio era um carregador? Estava carregando o bêbado. Fotografei esse carregador. Tive outras visões naquela madrugada. Preparei minha máquina de novo. Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado. Fotografei o perfume. Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra. Fotografei a existência dela. Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo. Fotografei o perdão. Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa. Fotografei o sobre. Foi difícil fotografar o sobre. Por fim eu enxerguei a ‘Nuvem de calça’. Representou para mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakowski – seu criador. Fotografei a ‘Nuvem de calça’ e o poeta. Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa mais justa para cobrir a sua noiva. A foto saiu legal. – Manoel de Barros, em “Ensaios fotográficos”. Rio de Janeiro: Editora Record, 2000.
É a sua vida que eu quero bordar na minha Como se eu fosse o pano e você fosse a linha E a agulha do real nas mãos da fantasia Fosse bordando ponto a ponto nosso dia-a-dia E fosse aparecendo aos poucos nosso amor Os nossos sentimentos loucos, nosso amor O zig-zag do tormento, as cores da alegria A curva generosa da compreensão Formando a pétala da rosa, da paixão A sua vida o meu caminho, nosso amor Você a linha e eu o linho, nosso amor Nossa colcha de cama, nossa toalha de mesa Reproduzidos no bordado A casa, a estrada, a correnteza O sol, a ave, a árvore, o ninho da beleza
quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018
Uma folha cai no escuro do quintal onde os grilos fazem a festa de repente um vulto uma luz no canto da sala... um vagalume um grilo uma noite uma luz acesa mostra um onde mostra um por que mostra... Virgínia Alves/ fev.2018
Como se fora brincadeira de roda, memória Jogo do trabalho na dança das mãos macias O suor dos corpos na canção da vida, história O suor da vida no calor de irmãos, magia Como um animal que sabe da floresta memória Redescobrir o sal que está na própria pele macia Redescobrir o doce no lamber das línguas, macias Redescobrir o gosto e o sabor da festa, magia Vai o bicho homem fruto da semente, memória Renascer da própria força, própria luz e fé, memória Entender que tudo é nosso, sempre esteve em nós, história Somos a semente, ato, mente e voz, magia Não tenha medo, meu menino povo, memória Tudo principia na própria pessoa, beleza Vai como a criança que não teme o tempo, mistério Amor se fazer é tão prazer que é como se fosse dor, magia Como se fora brincadeira de roda, memória Jogo do trabalho na dança das mãos macias O suor dos corpos na canção da vida, história O suor da vida no calor de irmãos, magia
Alguém me disse Que tu não me queres E que até proferes desaforos pro meu lado Fico admirado por incomodar-te assim Jamais pensei Que pensasses em mim
Nunca bebemos Do mesmo regato Sou apenas um mulato que toca boleros Custo a crer que meros Iero-Ieros de um cantor Possam te dar Tal dissabor
Vejo-te a fianar pela avenida Como dama Florescida num viveiro E em salões que nunca vi Serei o primeiro a duvidar Que em horas vagas Os teus lábios delicados Roguem pragas por aí
Ouço dizer, mas Deve ser mentira Nem a tua ira eu acredito que mereça Ou que vires a cabeça pra enxergar no breu Um vagabundo como eu
Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim
Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim
Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons
"Pois o específico das relações entre seres humanos é que o outro é, ao mesmo tempo, diferente e parecido conosco. ele é diferente por sua singularidade, suas características próprias, sua cultura, seu caráter. Mas é parecido conosco pela capacidade de sofrer, de amar, de chorar, de rir, de refletir. "
"Cada um mente a si mesmo, quer esquecer suas fraquezas, suas carências e coloca o outro como vilão, o malvado, que tem fraquezas e carências. "
"Uma vez o Harry Laus, perguntou, Eli como é que eu vou te classificar? Eu disse, ah meu filho eu não tenho rótulo...expressionista, outros diz primitiva, outros diz que eu sou surrealista, diz arte pop, arte incomum, nem eles sabe como vão me classificar, né. Daí eu disse assim, coloca imaginária, eu disse assim pra ele né, daí no mesmo instante deu um clic na minha cabeça. Imaginária? Pois se eu nem imagino já faço !!! " (Eli Heil - 1929/2017 )