sábado, 3 de março de 2018

Espera

Na sala
espero
sentada
na cadeira em frente
ele
sentaddo
também espera
dois esperançosos
que esperam
sentados
na sala
de espera

                                                     março/2018
                                                     Virgínia Alves

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

A mesa na porta
A porta no quarto
O quarto na sala
A sala na rua
A rua na casa
A casa nua


                       Virgínia Alves

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Poema "Difícil fotografar o silêncio", de Manoel de Barros, declamado por Antônio Abujamra









O fotógrafo
Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na
pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a ‘Nuvem de calça’.
Representou para mim que ela andava na aldeia de
braços com Maiakowski – seu criador.
Fotografei a ‘Nuvem de calça’ e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
mais justa para cobrir a sua noiva.
A foto saiu legal.
– Manoel de Barros, em “Ensaios fotográficos”. Rio de Janeiro: Editora Record, 2000.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Gilberto Gil - A Linha E O Linho







É a sua vida que eu quero bordar na minha
Como se eu fosse o pano e você fosse a linha
E a agulha do real nas mãos da fantasia
Fosse bordando ponto a ponto nosso dia-a-dia
E fosse aparecendo aos poucos nosso amor
Os nossos sentimentos loucos, nosso amor
O zig-zag do tormento, as cores da alegria
A curva generosa da compreensão
Formando a pétala da rosa, da paixão
A sua vida o meu caminho, nosso amor
Você a linha e eu o linho, nosso amor
Nossa colcha de cama, nossa toalha de mesa
Reproduzidos no bordado
A casa, a estrada, a correnteza
O sol, a ave, a árvore, o ninho da beleza

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Uma folha cai no escuro do quintal
onde os grilos fazem a festa
de repente um vulto
uma luz no canto da sala...
um vagalume
um grilo
uma noite
uma luz acesa
mostra um onde
mostra um por que
mostra...

Virgínia Alves/ fev.2018

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

ELIS REGINA CANTA REDESCOBRIR





REDESCOBRIR



(GONZAGUINHA)





Como se fora brincadeira de roda, memória
Jogo do trabalho na dança das mãos macias
O suor dos corpos na canção da vida, história
O suor da vida no calor de irmãos, magia
Como um animal que sabe da floresta memória
Redescobrir o sal que está na própria pele macia
Redescobrir o doce no lamber das línguas, macias
Redescobrir o gosto e o sabor da festa, magia
Vai o bicho homem fruto da semente, memória
Renascer da própria força, própria luz e fé, memória
Entender que tudo é nosso, sempre esteve em nós, história
Somos a semente, ato, mente e voz, magia
Não tenha medo, meu menino povo, memória
Tudo principia na própria pessoa, beleza
Vai como a criança que não teme o tempo, mistério
Amor se fazer é tão prazer que é como se fosse dor, magia
Como se fora brincadeira de roda, memória
Jogo do trabalho na dança das mãos macias
O suor dos corpos na canção da vida, história
O suor da vida no calor de irmãos, magia



terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Chico Buarque - Desaforos







Alguém me disse
Que tu não me queres
E que até proferes desaforos pro meu lado
Fico admirado por incomodar-te assim
Jamais pensei
Que pensasses em mim

Nunca bebemos
Do mesmo regato
Sou apenas um mulato que toca boleros
Custo a crer que meros Iero-Ieros de um cantor
Possam te dar
Tal dissabor

Vejo-te a fianar pela avenida
Como dama
Florescida num viveiro
E em salões que nunca vi
Serei o primeiro a duvidar
Que em horas vagas
Os teus lábios delicados
Roguem pragas por aí

Ouço dizer, mas
Deve ser mentira
Nem a tua ira eu acredito que mereça
Ou que vires a cabeça pra enxergar no breu
Um vagabundo como eu


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Contranarciso – Paulo Leminski

em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas
o outro
que há em mim
é você
você
e você
assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Luz Del Fuego







Eu hoje represento a loucura
Mais o que você quiser
Tudo que você vê sair da boca
De uma grande mulher
Porém louca!
Eu hoje represento o segredo
Enrolado no papel
Como luz del fuego
Não tinha medo
Ela também foi pro céu, cedo!
Eu hoje represento uma fruta
Pode ser até maçã
Não, não é pecado,
Só um convite
Venha me ver amanhã
Mesmo!
Amanhã! amanhã! amanhã!
Eu hoje represento o folclore
Enrustido no metrô
Da grande cidade que está com pressa
De saber onde eu vou
Sem essa!
Eu hoje represento a cigarra
Que ainda vai cantar
Nesse formigueiro quem tem ouvidos
Vai poder escutar
Meu grito!
Eu hoje represento a pergunta
Na barriga da mamãe
E quem morre hoje, nasce um dia
Pra viver amanhã
E sempre!


Compositores: Rita Carvalho / Rita Lee Jones Carvalho

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Choro Bandido - Chico Buarque







Choro Bandido
Chico Buarque

Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim

Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim

Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons



sábado, 30 de setembro de 2017

Chico Buarque - Futuros Amantes






Futuros Amantes

Chico Buarque




Não se afobe, não

Que nada é pra já

O amor não tem pressa

Ele pode esperar em silêncio

Num fundo de armário

Na posta-restante

Milênios, milênios no ar



E quem sabe, então

O Rio será

Alguma cidade submersa

Os escafandristas virão

Explorar sua casa

Seu quarto, suas coisas

Sua alma, desvãos



Sábios em vão

Tentarão decifrar

O eco de antigas palavras

Fragmentos de cartas, poemas

Mentiras, retratos

Vestígios de estranha civilização



Não se afobe, não

Que nada é pra já

Amores serão sempre amáveis

Futuros amantes, quiçá

Se amarão sem saber

Com o amor que eu um dia

Deixei pra você








terça-feira, 26 de setembro de 2017

com Ruy Espinheira Filho





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CANÇÃO MATINAL



Acorda bem cedo o homem
da casa de telha-vã
e abre janela e porta
como se abrisse a manhã.

E eis que a vida não é mais
nem triste, nem só, nem vã.
É doce: cheira a goiaba
e brilha como romã

orvalhada. E ele caminha,
o homem, com passos de lã
para em nada perturbar
a quietude da manhã.

Já não há mágoas de perdas
nem angústias de amanhã,
pois a alma que há na calma
entre a goiaba e a romã

é a própria alma do homem
da casa de telha-vã,
que declara a noite morta
e acende em si a manhã.

(Ruy Espinheira Filho ) 

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Ânima - Tribalistas





Ânima

(Tribalistas)


Numa outra dimensão

Não tinha teto nem chão

Não havia início nem final



Eu caí numa placenta

No fim dos anos sessenta

No hemisfério sul ocidental



Da onde eu vim

Eu não trouxe mala

Não trouxe nada



Não trouxe cor

Eu não trouxe massa

Só trouxe alma



Deixa ser e deixa estar

Deixa ir, deixa ficar

Deixa quieto, deixa o céu no mar



Deixa a nuvem, deixa o ar

Deixa a pluma flutuar

Deixa o tempo, deixa circular



Pra onde eu vou

Eu não levo casa

Não levo nada



Vou nesse voo

Eu não levo peso

Só levo asa



fonte: https://www.letras.mus.br/tribalistas/anima/


quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Edgar Morin - A demonização do outro





"Pois o específico das relações entre seres humanos é que o outro é, ao mesmo tempo, diferente e parecido conosco. ele é diferente por sua singularidade, suas características próprias, sua cultura, seu caráter. Mas é parecido conosco pela capacidade de sofrer, de amar, de chorar, de rir, de refletir. "



"Cada um mente a si mesmo, quer esquecer suas fraquezas, suas carências e coloca o outro como vilão, o malvado, que tem fraquezas e carências. "



(Edgar Morin)

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

com Manoel de Barros

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Eli Heil - criadora e criatura





"Uma vez o Harry Laus, perguntou, Eli como é que eu vou te classificar? Eu disse, ah meu filho eu não tenho rótulo...expressionista, outros diz primitiva, outros diz que eu sou surrealista, diz arte pop, arte incomum, nem eles sabe como vão me classificar, né. Daí eu disse assim, coloca imaginária, eu disse assim pra ele né, daí no mesmo instante deu um clic na minha cabeça. Imaginária?  Pois se eu nem imagino já faço !!! " (Eli Heil   -  1929/2017 )