quarta-feira, 30 de maio de 2018

sentada no carro
olha no espelho retrovisor
enxerga a moça
de braços cruzados
andando prá lá e prá cá
a espera de alguém
nesta manhã silenciosa
o carro chega
ela abre a porta
entra
o carro desaparece na esquina

                                                  Virgínia Alves
                                                    junho/2018

terça-feira, 22 de maio de 2018

a vida
corre solta
na sala
as pessoas
se despedem
se reencontram
a vida
a morte
num mesmo instante
na mesma sala
corre solta
                                    Virgínia Alves
                                                    maio/2018

terça-feira, 8 de maio de 2018

a mesa posta
o café passado
o bule vermelho
o coador de pano
a chapa quente
a torrada
é quebrada
na boca sedenta
os olhos grandes
o bolo coberto
de frutas vermelhas
as pessoas conversam
ao redor
da mesa posta
o café fervendo
a boca sedenta
na tarde
quente 
de outono

                                                Virgínia Alves
                                                     maio/2018

segunda-feira, 23 de abril de 2018

a porta pinga
a pia fecha
a toalha molha
a água desce
o poço canta
a noite dança
o sol criança
o dia dorme
o sal amarga
a sopa cala
a casa cansa
a flor se queixa
da lua escura
que na noite senta
a terra grita
pra flor que sente
colore a alma
que a vida é quente


                                          Virgínia Alves
                                              abril/2018

sábado, 21 de abril de 2018

o quadro
na parede branca
de tábuas retas
um sofá era encostado
em frente
a televisão
sobre a mesa de rodinha
servia de enfeite
a cadeira de balanço
muitas estórias pra contar
lembranças da infância
quando a avó cantava cantigas de ninar                     

                                               Virgínia Alves
                                                   abril/2018

quinta-feira, 12 de abril de 2018



Na casa

a conversa
se fazia
ela e ela
quanto tempo
quantos anos
a casa
a conversa
e as duas
na mesma pessoa
conversaram noite adentro
                                   
                                              Virgínia Alves
                                              abril/2018
                                              

terça-feira, 10 de abril de 2018

Ferreira Gullar – Traduzir-se







Ferreira Gullar falando do poema traduzir-se....



"quem sou eu? eu sou o poeta

ou sou essa pessoa aqui que tá atormentada com esses problemas,

então eu subi pro jornal e já no elevador comecei a escrever "uma parte de mim

é todo mundo e outra parte é ninguém fundo sem fundo"


As mãos estendidas
o copo branco
as galinhas pintadas
verde amarela vermelha
uma garrafa 
o mármore 
o prato
o vazio
e Tom Zé canta.....
"existir a que será
que se destina"

                             Virgínia Alves
                                  abril/2018 

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Tom Zé l Transando Com Laerte







Tom Zé fala de seu primeiro contato com as letras, de sua timidez e como a leitura o ajudou a enfrentar. Conta que ia pra casa do avô, que tinha uma biblioteca, com livros como Thomas Mann, Kafka, Dante Alighieri. Ele passava um mês lá e "relaxava", como ele diz. Tentava sair na rua e quando tinha alguma decepção voltava pra casa e "tome leitura que era a salvação", conta.

sábado, 3 de março de 2018

Espera

Na sala
espero
sentada
na cadeira em frente
ele
sentaddo
também espera
dois esperançosos
que esperam
sentados
na sala
de espera

                                                     março/2018
                                                     Virgínia Alves

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

A mesa na porta
A porta no quarto
O quarto na sala
A sala na rua
A rua na casa
A casa nua


                       Virgínia Alves

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Poema "Difícil fotografar o silêncio", de Manoel de Barros, declamado por Antônio Abujamra









O fotógrafo
Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na
pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a ‘Nuvem de calça’.
Representou para mim que ela andava na aldeia de
braços com Maiakowski – seu criador.
Fotografei a ‘Nuvem de calça’ e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
mais justa para cobrir a sua noiva.
A foto saiu legal.
– Manoel de Barros, em “Ensaios fotográficos”. Rio de Janeiro: Editora Record, 2000.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Gilberto Gil - A Linha E O Linho







É a sua vida que eu quero bordar na minha
Como se eu fosse o pano e você fosse a linha
E a agulha do real nas mãos da fantasia
Fosse bordando ponto a ponto nosso dia-a-dia
E fosse aparecendo aos poucos nosso amor
Os nossos sentimentos loucos, nosso amor
O zig-zag do tormento, as cores da alegria
A curva generosa da compreensão
Formando a pétala da rosa, da paixão
A sua vida o meu caminho, nosso amor
Você a linha e eu o linho, nosso amor
Nossa colcha de cama, nossa toalha de mesa
Reproduzidos no bordado
A casa, a estrada, a correnteza
O sol, a ave, a árvore, o ninho da beleza

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Uma folha cai no escuro do quintal
onde os grilos fazem a festa
de repente um vulto
uma luz no canto da sala...
um vagalume
um grilo
uma noite
uma luz acesa
mostra um onde
mostra um por que
mostra...

Virgínia Alves/ fev.2018

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

ELIS REGINA CANTA REDESCOBRIR





REDESCOBRIR



(GONZAGUINHA)





Como se fora brincadeira de roda, memória
Jogo do trabalho na dança das mãos macias
O suor dos corpos na canção da vida, história
O suor da vida no calor de irmãos, magia
Como um animal que sabe da floresta memória
Redescobrir o sal que está na própria pele macia
Redescobrir o doce no lamber das línguas, macias
Redescobrir o gosto e o sabor da festa, magia
Vai o bicho homem fruto da semente, memória
Renascer da própria força, própria luz e fé, memória
Entender que tudo é nosso, sempre esteve em nós, história
Somos a semente, ato, mente e voz, magia
Não tenha medo, meu menino povo, memória
Tudo principia na própria pessoa, beleza
Vai como a criança que não teme o tempo, mistério
Amor se fazer é tão prazer que é como se fosse dor, magia
Como se fora brincadeira de roda, memória
Jogo do trabalho na dança das mãos macias
O suor dos corpos na canção da vida, história
O suor da vida no calor de irmãos, magia



terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Chico Buarque - Desaforos







Alguém me disse
Que tu não me queres
E que até proferes desaforos pro meu lado
Fico admirado por incomodar-te assim
Jamais pensei
Que pensasses em mim

Nunca bebemos
Do mesmo regato
Sou apenas um mulato que toca boleros
Custo a crer que meros Iero-Ieros de um cantor
Possam te dar
Tal dissabor

Vejo-te a fianar pela avenida
Como dama
Florescida num viveiro
E em salões que nunca vi
Serei o primeiro a duvidar
Que em horas vagas
Os teus lábios delicados
Roguem pragas por aí

Ouço dizer, mas
Deve ser mentira
Nem a tua ira eu acredito que mereça
Ou que vires a cabeça pra enxergar no breu
Um vagabundo como eu


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Contranarciso – Paulo Leminski

em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas
o outro
que há em mim
é você
você
e você
assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Luz Del Fuego







Eu hoje represento a loucura
Mais o que você quiser
Tudo que você vê sair da boca
De uma grande mulher
Porém louca!
Eu hoje represento o segredo
Enrolado no papel
Como luz del fuego
Não tinha medo
Ela também foi pro céu, cedo!
Eu hoje represento uma fruta
Pode ser até maçã
Não, não é pecado,
Só um convite
Venha me ver amanhã
Mesmo!
Amanhã! amanhã! amanhã!
Eu hoje represento o folclore
Enrustido no metrô
Da grande cidade que está com pressa
De saber onde eu vou
Sem essa!
Eu hoje represento a cigarra
Que ainda vai cantar
Nesse formigueiro quem tem ouvidos
Vai poder escutar
Meu grito!
Eu hoje represento a pergunta
Na barriga da mamãe
E quem morre hoje, nasce um dia
Pra viver amanhã
E sempre!


Compositores: Rita Carvalho / Rita Lee Jones Carvalho